quinta-feira, 4 de outubro de 2018

OS CARAPAUS

Estamos no supermercado e a Eliana leva-me, como quase sempre, para a zona da peixaria.
A senhora, já se ri, quando a vê.
- Queres carapaus? - diz-lhe divertida
- MUITOS - responde a Eliana, a abrir os braços bem abertos para assinalar a quantidade.
- Quatro! - digo eu, introduzindo a dimensão do real no pedido, da Eliana, que fica contrariada.
- Porque não podemos levar, TODOS?- pergunta, surpreendida.

Este é um tema recorrente, no nosso dia a dia, quando falamos de bens alimentares. Se estão ali, nos expositores do supermercado, são para levar , TODOS. Não lhe faz sentido a ideia de levar uns quantos e deixar os outros. Eu, olho e oiço-a, e penso, na economia guineense, no contexto rural onde os pais da Eliana habitam,  na lógica da agricultura de subsistência e em tudo o que ensinamos sobre consumo, sem pensarmos que estamos a fazê-lo, no dia a dia com as crianças, no contexto familiar.

Tinha quase cinco anos quando chegou a Portugal e tanto que estes, quase cinco anos, marcaram a visão do mundo da Eliana. Por momentos, penso nas crianças institucionalizadas em Portugal e o que aprenderão sobre o mundo, sobre economia, sobre consumo doméstico mas abandono, rapidamente, este pensamento.
Pensar nos bandos de miúdos, na Guiné Bissau, a apanhar a fruta do caju  e a transportá-la, em alguidares à cabeça, é mais sedutor. Não é tempo, nem lugar, para pensar e redefinir o meu conceito de pobreza.

Fotografia cedida pela irmã Margarete (2018) em Catió, Guiné Bissau


De feitio fácil, rapidamente a Eliana, se contenta com os quatro carapaus, escolhidos, cuidadosamente, pela peixeira para serem mais adequados à fritura.
A Eliana, ama peixe frito e, embora eu odeie o cheiro de peixe frito, a invadir o maravilhoso anoitecer que acontece lá em casa, digo que sim, que o peixe é para fritar quando a senhora me pergunta se os carapaus são para fritar. carapaus.

A Eliana, está super feliz porque não é todos os dias que a deixo trazer peixe, para fritar em casa. São mais os dias em que opto pelos inócuos lombos de pescada congelados. Terríveis, em sabor (comparativamente), mas maravilhosos em facilidade de cozedura e sem cheiro.

Meia hora depois, jantamos. Eu tenho o meu jantar e a Eliana come o seu. A sopa e o peixe. Mas fica triste. Quer partilhar comigo, o excelente pitéu.
- Vá lá, come um pouquito! - diz-me em tom de súplica máxima- É tão bom. Tenta!

Eu sorrio e digo que sim.

Há momentos, como este, em que agradeço imenso esta oportunidade que a vida me deu, de ter uma miúda na minha vida aos 58 anos.

E o peixe, está óptimo mas eu, apenas, provo uma lasca de um, dos quatro peixes que se alinham no prato.

A miúda, acaba a sopa e coloco-lhe o prato do peixe, na frente.

- Posso comer "ca" mão? Posso? - pergunta-me em modo de sedução máxima. Percebo, que nesse momento, toda ela já está, na Guiné Bissau.

- Podes, claro que podes! -  digo eu, que sempre fico surpreendida como, esta miúda, come um peixe, em menos de de um fósforo e maravilhada, com o prazer, com que o faz.
No final, fica apenas a espinha maior, a reluzir no prato e a felicidade é total.

Logo, ela pega no peixe que está mais próximo no prato e prepara-se para o comer mas eu penso que o outro, que eu provei, estando aberto, vai arrefecer, mais depressa e digo-lhe, interrompendo-lhe o gesto.

- Olha, começa, antes por este aqui! Não comas esse! - digo-lhe a apontar para o peixe que provei.- Come este primeiro.

Ela pára, olha para mim surpreendida, com os olhos muito abertos como só ela sabe abrir e responde-me, surpreendida.
- Porquê? Este, está mais aflito? - e olha o peixe que lhe indiquei.

Só me dá vontade de rir, esta miúda.

Deve ter transferido a sua urgência em comer, rapidamente, todos os peixes fritos que tinha para jantar nesse dia, para a vontade dos peixes, em serem comidos e foi assim que entendeu a minha advertência, ou seja, que comesse, primeiro, o peixe mais ansioso em ser comido. Faz sorrir esta miúda!

E foi assim, o jantar de ontem, onde deixei para trás as questões mais complexas associadas à economia de consumo, à pobreza e às marcas duradouras da infância na visão que construímos do mundo e sorri a memorizar a história dos peixes aflitos para serem comido.

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2 comentários:

  1. Tão gira esta descrição do modo de ser e de se relacionar da Eliana. Também eu vi que ela ama comer peixe. Sardinhas assadas. Espero que o sr. Luís tenha sardinhas no próximo sábado. A mestria da Eliana a comer as sardinhas é digna de admiração.É uma das poucas crianças que conheço que come o peixe com tanto prazer e sem necessidade de ajuda do adulto para o arranjar. Está convidada para almoçar no sábado:peixe será o almoço. Um beijinho grande para as duas. Aproveitem a vida :)

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  2. Obrigada Isaura. De facto, desde que chegou com 4 anos, a fazer cinco que come peixe que só deixa a espinha principal. Um prazer! Muito obrigada pelo tempo que dedicaram à Eliana. Ela amou!

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