Como usa uniforme e se esqueceu do casaco na escola, Eliana, não tem casaco para vestir.
- Vais deixar-me longe da escola para eu ir, sozinha? - a pergunta tem sentido porque, como eu sei que a Eliana gosta de caminhar, sozinha, na rua como fazia na Guiné Bissau, onde cresceu, quase, até aos cinco anos, eu, sempre que posso, deixo-a, relativamente, longe da escola e fico a vê-la a ir para a escola, a andar pelo passeio até entrar na escola. E ela ama essa liberdade.
- Não, porque está um pouco de frio e tu não tens o casaco. Vou deixar-te à porta para não apanhares frio.
- Mas eu gosto de ter frio.- responde.
- Paciência. Os casacos são para trazer para casa. Não são para ficar na escola.
- Mas eu posso imaginar que tenho o casaco! - e faz um gesto de voo com os braços - Vou imaginar que o casaco veio a voar até aqui.
Eu acho graça à imaginação mas contínuo a dizer que não. Os casacos, como a professora explicou são para ir e voltar, não são para ficar na escola, no cabide, volto a repetir-lhe.
A miúda, cala-se, uns segundos, até que, finaliza a conversa, com voz de desânimo e resignação, com a seguinte interrogação.
- Mas ... mas tu, agora, fazes tudo o que a professora diz?
Eu sorrio, mesmo divertida.
A relação escola-família, quando corre bem e tranquila, possibilita, exactamente, esta sintonia professor(a) e pais ou encarregado de educação que a Eliana está a sentir.
Não sei, é se ela gosta muito desta sintonia...
- Ahahahahahahah, miúda esperta. - penso eu, divertidamente.
A literatura sobre o assunto (Perrenoud, ver nota 1) alerta, muito bem, sobre as tentativas da criança, em gerir esta relação escola-família, para preservar o seu espaço de liberdade.
Tenho pena, não vai ter muito sucesso!!!!
Nota 1 - Vale a pena ler ...
Autor: Philippe Perrenoud
Título: Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar
Local e Editora: Porto : Porto Editora
Data: 1995

Ahahahahahahahah
ResponderEliminarÉ rir logo de manhã com a Eliana!!!
Podes acreditar ... a imaginação é extra!
EliminarOlá Luísa ��
ResponderEliminarEstava aqui a pensar que a miúda tem toda a razão! A relação Escola Famílias é aquele "triângulo" onde eu aprendi que a criança tem obrigatoriamente de fazer parte.
Beijinho enorme às duas!
:) Mais do que "fazer parte" a miúda, tenho a ideia, que quer é gerir essa relação. Acho que ficou a avaliar, desde os TPCs do dia anterior, que esta ideia de que a mãe falou com a professora e que a professora me "deixa" mandar nos trabalhos, não lhe pareceu muito favorável porque resultou em mais trabalho. Ehhhhhh, mais uns tempinhos e já me vai começar a dizer " eu é que sei o que a professora quer" e pronto ... Mas, como me viu a falar com a professora, ou seja não só só eu que lhe digo que falo com a professora, ela viu e existe um caderno de comunicação entre nós as duas, não se deve sentir, ainda, muito segura para opinar ... É a sina dos "filhos das professoras" ... estão feitos.
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