segunda-feira, 29 de outubro de 2018

MATERNIDADE

Hoje, no minha vida como voluntária da Associação Famílias do Mundo, associação de que também sou presidente, fui visitar uma jovem mulher, que tinha tido um bebé em Lisboa.
Guineense com 29 anos, esta mãe, e daí a razão da minha ida à maternidade para a visitar, chegou grávida, a acompanhar um filho doente, que se encontra ainda internado, há quatro meses atrás, sem familiares nem amigos em Portugal e a Embaixada da Guiné Bissau, com quem a Associação Famílias do Mundo tem um protocolo de acompanhamento social, foi informada da situação de desprotecção em que se encontra em Portugal e eu, soube do caso, neste contexto.
Esta semana que passou, já tinha colocado um pedido no Facebook de acompanhamento desta mãe e do seu filho recém-nascido, e a Rita Calejo Pires, já se tinha disponibilizado para acolher esta mãe e filhos, em sua casa. E também, a Renata Azevedo já me tinha falado desta situação e pedido ajuda.
Por isso, sem visitas de familiares nem amigos porque ainda não os tem, em Portugal, foi fácil ter a senha de VISITANTE, na apinhada sala de espera, cheia de visitantes, para visitar esta mulher.
- Que melhor destino para um domingo, dia do Senhor, para um mulher-mãe, católica como eu? - pensei eu a pedir o cartão de visitante e achei maravilhoso estar ali.
Assim, procurei, com expectativa, a cama x, na sala y, e encontrei a cama, a mãe e o recém-nascido, numa enfermaria cheia de mães e visitantes. Encontrei a mãe, a única sozinha naquela enfermaria, debruçada sobre o seu bebé.
Recebeu-me, com um sorriso deslumbrante num olhar brilhante, e reconheci-a, logo , como uma guineense-balanta, como a Eliana, e a empatia foi imediata.
- Olá, sou Luísa, da Associação Famílias do Mundo, sou desta associação que está a encontrar uma família, para a receber aqui em Portugal - e eu sorri - sei que já conheceu a Rita, a nossa voluntária, e agora venho eu, apresentar-me. Como está? - e olhando o bebé, continuei - É lindo, o seu bebé!
Há, momentos da vida, que sinto que ,toda a minha vida, faz sentido e este, foi um deles, naquela ligação imediata que senti entre aquela mulher, que poderia ser a Eliana já mulher, e eu, com os meus 58 anos, tão europeia e tão do mundo, mãe e avó.
- Sim, conheceu a senhora Rita. - disse a mãe, sorrindo e cumprimentando-me - Quer se sentar? - e ajeitou-se, na cama, para me dar espaço.
Fico, sempre, tocada pela capacidade que, algumas pessoas, possuem de, mesmo numa situação de fragilidade extrema, serem abertas ao outro e se preocuparem com ele.
Este movimento de me oferecer espaço para que me sentasse significou isso mesmo.
Extraordinário!
Não posso partilhar todos os detalhes dos momentos que passei, ali na maternidade, com aquela mãe, mas digo-vos que foram mágicos e mais uma lição de vida da Guiné Bissau.
Com os seus 29 anos, Maria*, está em Portugal, desde junho, como já escrevi. Veio a acompanhar o seu filho, que desde que nasceu tem uma doença grave e, por essa razão, foi evacuado para Portugal, ao abrigo do Acordo de Cooperação no âmbito da Saúde entre o Estado de Portugal e o Estado da Guiné Bissau. O menino tem 21 meses e está internado num hospital em Lisboa e a mãe, grávida, a viver, num hospital, estes meses de gravidez e preocupação.
E foi deste menino, que a mãe mais me falou, este outro filho que ficou no hospital e que ela não pode continuar a acompanhar, que sente que está sem ela e com quem se preocupa.
- Mas como ir ter com o outro filho - pensava eu - com um bebé recém nascido? Mas, como ficar com os dois filhos e cuidar deles até o mais velho ter alta e poder regressar à Guiné Bissau se nem tem alojamento em Portugal, família ou amigos, para poder sair do hospital como seu filho mais velho e estar com os dois, a desdobrar-se em cuidados, entre um e outro?
Olho, esta mãe, que calmamente dá de mamar ao seu bebé e penso na profundeza do drama humano que se estende por trás da paz que vejo e entendo o desespero das assistentes sociais do hospital e de uma associação que trabalha em parceria com o hospital, para encontrar solução de estadia e alojamento para esta mãe e para este bebé e seu irmão doente.
E penso na imensidão do gesto da Rita Calejo Pires, que com o seu marido Frederico, estão a arranjar um quartinho, em sua casa, para acolher esta mãe e estes filhos (o outro menino tem alta hospitalar mas ainda não saiu do hospital porque esta família não tem para onde ir e a mãe estava para ter este bebé) respondendo ao apelo da Associação Famílias do Mundo e penso na Sandra Bem e no Hélio Franco que também se prontificaram para acolher esta família e sinto-me forte e feliz, a acreditar no poder da bondade e do amor.
E agradeço o papel de "ponte" que me foi pedido para desempenhar, nesta vida.

Pego no bebé, a recordar o meu neto nascido dez dias antes, que me olha com aquele olhar dos recém-nascidos, onde todas os céus e estrelas deste mundo se diluem, e mudo-lhe a fralda, com amor. Tudo o que esta mãe tem foi-lhe oferecido. As roupinhas são de uma associação, as fraldas de outro, o boneco oferecido por uma voluntária, estes produtos de higiene levou-os a Rita.
Por vezes, os meus filhos e família próxima, penso que sentem, que eu não tenho uma noção de família, muito centrada neles como gostariam, e sinto que é verdade.
De alguma forma, a matéria que me formou trazia em si, este destino de ser mundo!
Sinto-me abençoada!
Amanhã, segunda-feira, Assistentes Sociais, Embaixada da Guiné Bissau, Segurança Social e Comissão de Protecção de Crianças e Jovens decidirão o futuro destes três seres, em rota de vida, em Portugal.
Nós, estamos aqui, com esta proposta de acolher esta família, no seio de outra família.
Que o amor prevaleça!
Nome de Maria - Chamei a esta mãe "Maria" em homenagem a Nossa Senhora, mesmo que a Associação Famílias não seja uma organização católica e o que me levava ali era o trabalho da associação e não nenhum movimento católico, mas a desprotecção daquele bebé só me lembrou Jesus),

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