Esta realidade, como contexto de vida, gera uma diferença na forma de olhar o mundo entre estas crianças e as crianças, que não vivem em situação de pobreza extrema, como é o caso, das crianças que vivem, em contexto de classe média, em países, como Portugal.
Aqui, em Portugal, muitas das nossas crianças, nunca viveram em situação de pobreza ou próximo de contextos onde se vive em situação de pobreza, nunca observaram de perto, crianças da sua geração, a quem lhes faltasse aquilo que, sempre, tiveram como garantido: casa, alimentação, escolaridade e amor.
Logo, nem viveram nem observaram, situações de falta efectiva, de ausência de comida, de água, de luz, de serviços de saúde, de escola, de esperança de vida. Nunca!
A pobreza para muitas das nossas crianças, torna-se assim, uma espécie de ideia abstrata, de algo que acontece aos outros, mas não a si próprias, que os pais referem quando não comem a sopa falando de as muitas crianças que não têm nada para comer que passam fome e que, se deliciariam com aquela mesma sopa.
Assim, pelas circunstâncias privilegiadas das suas vidas, para muitas crianças, a pobreza, é algo que acontece fora da sua realidade imediata, em que as crianças pobres não vivem na mesma rua onde todos se encontram a brincar, não lhes conhecem os nomes, não foram companheiras de escola, não partilharam problemas, nem se consolaram, mutuamente.
Uma grande diferença acontece quando, uma criança cresce num contexto de pobreza, de escassez de recursos na família e na comunidade próxima. Quando uma criança cresce em situação de pobreza, a comida é um bem que é raro, que nunca se pode dar como garantida. E que se hoje come é porque os pais batalharam para conseguir, ou alguém veio dar ou foram apanhar. Mas nunca nada é permanente. E os pais são fundamentais porque uma criança abandonada, não sobrevive. Ou sobrevive, com um grupo de outras crianças.
O que aprendi com a Eliana, é que ela amava e ama os seus pais, pelo amor e porque cuidavam dela onde havia tanta dificuldade, e que agora me ama, com o mesmo amor que aprendeu com eles e, ao mesmo tempo que percebe que eu não tenho as mesmas dificuldades de acesso a comida, a água, a luz e a protecção em casa.
Percebe a diferença do nível de vida que lhe possibilito. Ao fim de umas semanas deixou de guardar pão nas gavetas e de ir verificar se havia ovos e manteiga no frigorífico podendo não comer tudo o que havia em casa, na refeição que estava fazer, porque a comida não ia desaparecer.
Verificava feliz que quando comia fruta aparecia mais no mesmo lugar, e o mesmo acontecia com os ovos e, muito mais tarde percebeu que havia supermercados onde havia tudo o que ela precisava para comer e que eu ia comparar quando era necessário. Foi uma descoberta imensa. E não era preciso trazer tudo do supermercado porque, no dia seguinte, continuavam a haver lá coisas para comprar. O mesmo não se passa na Guiné Bissau, onde pobreza é maior.
A Eliana percebe a diferença entre Portugal e a Guiné Bissau em muitas dimensões como o acesso a comida, higiene e sítio para dormir e em oportunidades que nunca sonhou ter, como a escola, as atividades de férias, os amigos, o amor que a rodeia.
O lugar da criança é um lugar maravilhoso, na nossa sociedade e ela sabe ligando-se, assim, imenso aos adultos que isso lhe possibilitam.
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| Crianças a almoçar, fotografadas pelo pai da Eliana, em Catió, Guiné Bissau. |

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