segunda-feira, 29 de outubro de 2018

DESCULPA, ENSINEI-TE A LIÇÃO ERRADA

O dia foi longo e cansativo.
Escola desde as nove, aula de dança das 17h30 às 18h30 e, uma mãe extenuada a ir buscar, uma criança, quase 30 minutos depois, do fim da aula. 

Mas o destino não era, logo a nossa casa porque ainda era preciso passar, no supermercado, para umas compras, urgentes.
Tenho a ideia que o cansaço, tanto em adultos como em crianças, é muito destruidor  do equilíbrio interno, que todos temos e das relações interpessoais  harmoniosas, que todos desejamos.
Logo, quando comecei a ouvir a Eliana, em modo de ladainha quase chorosa, de que eu comprava sempre tudo ao meu filho Kiko e nada a ela, que eram sempre as coisas para o Kiko que eu comprava e nada para ela,  que queria imenso jantar pizza e eu não lhe comprava,  confesso que não liguei muito e, avancei pelo supermercado, em modo de surdez selectiva.


Mas a ladainha quase chorosa, transformou-se em ladainha chorosa e, como o meu cansaço já era muito considerável e quero ver a criança feliz, disse que sim, que lhe comprava a pizza. 
Assim, logo de seguida, em tranquilidade sonora, continuámos a avançar pelo supermercado, a procurar os essenciais frescos para o pequeno almoço e o que é necessário ter, de lanches ( pão e sumos), quando se tem prevista, uma manhã no Hospital de Santa Cruz, na consulta externa e tudo, neste momento de rotina de compras, se passava tranquilamente.

Mas a paragem, na fila para as caixas de pagamento, introduziu novo factor desencadeador de ladainha infantil, não chorosa. Algures, por cima dos chocolates e chupa-chupas, anunciava-se umas saquetas brinde de princesas, embaladas, que mudavam de cor.
Como a criança já sabe ler muitas coisas, conseguiu, depois de descobrir, pelo desenho, que as saquetas eram com princesas e que as princesas miniatura, teriam luz.
A criança leu a frase "mudam de cor"! Fantástico!
Mas fantástica, não foi a teimosia que a mesma criança exibiu, insistindo de que eu tinha de lhe comprar uma princesa, naquele preciso momento e como não fiz, passou directamente,  para a ladainha chorosa e muito chorosa.

Cansaço mais cansaço, resolvi ignorar, ainda fui pagar a Segurança Social da nossa funcionária no multibanco com a criança em modo amuado e, já no carro, as anteriores ladainhas, desaguaram num mar de lágrimas. 
Um birra de consumo, no seu melhor.  
Ora, nestas situações, na maior parte das vezes, apetece-me ralhar violentamente com a criança, zangar-me mesmo, mas, hoje, ainda cheia de tranquilidade ou infinita paciência versus reflexão profunda, abri a porta do prédio, sentei-me nos degraus do primeiro patamar e disse-lhe, colocando-a no meu colo.
- Desculpa, ensinei-te a lição errada. Nunca te devia ter ensinado que o amor das pessoas, umas pelas outras, se via pelas coisas que lhes compramos e, quanto mais se compra, mais se gosta de uma criança. Desculpa, não é preciso comprar coisas para que uma criança possa saber e sentir que é amada. Isso, vê-se no brilho dos nossos olhos quando olhamos para ela, nos olhos, e ela sabe, logo, que gostamos, muito, dela. Percebes? 

A criança parou de chorar e olhou para mim, em modo de surpresa total, não sei se pelo momento inesperado de afecto, se pelas palavras que eu falava.

- Desculpa! - insisti eu - E eu sei, muito bem, que não foram os teus pais que te ensinaram que quantas mais coisas se compram, mais se gosta de uma criança, porque eles gostavam mito de ti e nao te compravam nada, não era? Foi tudo, eu, que te ensinei! Desculpa.

- Pois, na Guiné não compravam nada. - e parou um segundo - Não havia nada.

Eu olhei para ela e sorri

- E olha, como gostavas deles e eles de ti, sem supermercados e caixas com princesas que mudam de cor.

A criança, olhou para mim e afastou-se restabelecida.
A meio das escadas, já falava do jantar sem se lembrar mais da pizza e perguntava se havia mais canjinha como tinha levado para a escola, esquecida dos melodramas anteriores.

E eu, fiquei a pensar, no que ensinamos de errado às crianças,  nestas e em outras situações. Uma luta!
Fotografia desde a ATM onde eu pagava as contas e a criança aguardava.








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