terça-feira, 30 de outubro de 2018
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
DESCULPA, ENSINEI-TE A LIÇÃO ERRADA
O dia foi longo e cansativo.
Escola desde as nove, aula de dança das 17h30 às 18h30 e, uma mãe extenuada a ir buscar, uma criança, quase 30 minutos depois, do fim da aula.
Mas o destino não era, logo a nossa casa porque ainda era preciso passar, no supermercado, para umas compras, urgentes.
Tenho a ideia que o cansaço, tanto em adultos como em crianças, é muito destruidor do equilíbrio interno, que todos temos e das relações interpessoais harmoniosas, que todos desejamos.
Logo, quando comecei a ouvir a Eliana, em modo de ladainha quase chorosa, de que eu comprava sempre tudo ao meu filho Kiko e nada a ela, que eram sempre as coisas para o Kiko que eu comprava e nada para ela, que queria imenso jantar pizza e eu não lhe comprava, confesso que não liguei muito e, avancei pelo supermercado, em modo de surdez selectiva.
Mas a ladainha quase chorosa, transformou-se em ladainha chorosa e, como o meu cansaço já era muito considerável e quero ver a criança feliz, disse que sim, que lhe comprava a pizza.
Assim, logo de seguida, em tranquilidade sonora, continuámos a avançar pelo supermercado, a procurar os essenciais frescos para o pequeno almoço e o que é necessário ter, de lanches ( pão e sumos), quando se tem prevista, uma manhã no Hospital de Santa Cruz, na consulta externa e tudo, neste momento de rotina de compras, se passava tranquilamente.
Mas a paragem, na fila para as caixas de pagamento, introduziu novo factor desencadeador de ladainha infantil, não chorosa. Algures, por cima dos chocolates e chupa-chupas, anunciava-se umas saquetas brinde de princesas, embaladas, que mudavam de cor.
Como a criança já sabe ler muitas coisas, conseguiu, depois de descobrir, pelo desenho, que as saquetas eram com princesas e que as princesas miniatura, teriam luz.
A criança leu a frase "mudam de cor"! Fantástico!
Como a criança já sabe ler muitas coisas, conseguiu, depois de descobrir, pelo desenho, que as saquetas eram com princesas e que as princesas miniatura, teriam luz.
A criança leu a frase "mudam de cor"! Fantástico!
Mas fantástica, não foi a teimosia que a mesma criança exibiu, insistindo de que eu tinha de lhe comprar uma princesa, naquele preciso momento e como não fiz, passou directamente, para a ladainha chorosa e muito chorosa.
Cansaço mais cansaço, resolvi ignorar, ainda fui pagar a Segurança Social da nossa funcionária no multibanco com a criança em modo amuado e, já no carro, as anteriores ladainhas, desaguaram num mar de lágrimas.
Um birra de consumo, no seu melhor.
Ora, nestas situações, na maior parte das vezes, apetece-me ralhar violentamente com a criança, zangar-me mesmo, mas, hoje, ainda cheia de tranquilidade ou infinita paciência versus reflexão profunda, abri a porta do prédio, sentei-me nos degraus do primeiro patamar e disse-lhe, colocando-a no meu colo.
- Desculpa, ensinei-te a lição errada. Nunca te devia ter ensinado que o amor das pessoas, umas pelas outras, se via pelas coisas que lhes compramos e, quanto mais se compra, mais se gosta de uma criança. Desculpa, não é preciso comprar coisas para que uma criança possa saber e sentir que é amada. Isso, vê-se no brilho dos nossos olhos quando olhamos para ela, nos olhos, e ela sabe, logo, que gostamos, muito, dela. Percebes?
A criança parou de chorar e olhou para mim, em modo de surpresa total, não sei se pelo momento inesperado de afecto, se pelas palavras que eu falava.
- Desculpa! - insisti eu - E eu sei, muito bem, que não foram os teus pais que te ensinaram que quantas mais coisas se compram, mais se gosta de uma criança, porque eles gostavam mito de ti e nao te compravam nada, não era? Foi tudo, eu, que te ensinei! Desculpa.
- Pois, na Guiné não compravam nada. - e parou um segundo - Não havia nada.
Eu olhei para ela e sorri
- E olha, como gostavas deles e eles de ti, sem supermercados e caixas com princesas que mudam de cor.
A criança, olhou para mim e afastou-se restabelecida.
A meio das escadas, já falava do jantar sem se lembrar mais da pizza e perguntava se havia mais canjinha como tinha levado para a escola, esquecida dos melodramas anteriores.
A meio das escadas, já falava do jantar sem se lembrar mais da pizza e perguntava se havia mais canjinha como tinha levado para a escola, esquecida dos melodramas anteriores.
E eu, fiquei a pensar, no que ensinamos de errado às crianças, nestas e em outras situações. Uma luta!
| Fotografia desde a ATM onde eu pagava as contas e a criança aguardava. |
MATERNIDADE
Hoje, no minha vida como voluntária da Associação Famílias do Mundo, associação de que também sou presidente, fui visitar uma jovem mulher, que tinha tido um bebé em Lisboa.
Guineense com 29 anos, esta mãe, e daí a razão da minha ida à maternidade para a visitar, chegou grávida, a acompanhar um filho doente, que se encontra ainda internado, há quatro meses atrás, sem familiares nem amigos em Portugal e a Embaixada da Guiné Bissau, com quem a Associação Famílias do Mundo tem um protocolo de acompanhamento social, foi informada da situação de desprotecção em que se encontra em Portugal e eu, soube do caso, neste contexto.
Esta semana que passou, já tinha colocado um pedido no Facebook de acompanhamento desta mãe e do seu filho recém-nascido, e a Rita Calejo Pires, já se tinha disponibilizado para acolher esta mãe e filhos, em sua casa. E também, a Renata Azevedo já me tinha falado desta situação e pedido ajuda.
Por isso, sem visitas de familiares nem amigos porque ainda não os tem, em Portugal, foi fácil ter a senha de VISITANTE, na apinhada sala de espera, cheia de visitantes, para visitar esta mulher.
- Que melhor destino para um domingo, dia do Senhor, para um mulher-mãe, católica como eu? - pensei eu a pedir o cartão de visitante e achei maravilhoso estar ali.
Assim, procurei, com expectativa, a cama x, na sala y, e encontrei a cama, a mãe e o recém-nascido, numa enfermaria cheia de mães e visitantes. Encontrei a mãe, a única sozinha naquela enfermaria, debruçada sobre o seu bebé.
Recebeu-me, com um sorriso deslumbrante num olhar brilhante, e reconheci-a, logo , como uma guineense-balanta, como a Eliana, e a empatia foi imediata.
- Olá, sou Luísa, da Associação Famílias do Mundo, sou desta associação que está a encontrar uma família, para a receber aqui em Portugal - e eu sorri - sei que já conheceu a Rita, a nossa voluntária, e agora venho eu, apresentar-me. Como está? - e olhando o bebé, continuei - É lindo, o seu bebé!
Há, momentos da vida, que sinto que ,toda a minha vida, faz sentido e este, foi um deles, naquela ligação imediata que senti entre aquela mulher, que poderia ser a Eliana já mulher, e eu, com os meus 58 anos, tão europeia e tão do mundo, mãe e avó.
- Sim, conheceu a senhora Rita. - disse a mãe, sorrindo e cumprimentando-me - Quer se sentar? - e ajeitou-se, na cama, para me dar espaço.
Fico, sempre, tocada pela capacidade que, algumas pessoas, possuem de, mesmo numa situação de fragilidade extrema, serem abertas ao outro e se preocuparem com ele.
Este movimento de me oferecer espaço para que me sentasse significou isso mesmo.
Não posso partilhar todos os detalhes dos momentos que passei, ali na maternidade, com aquela mãe, mas digo-vos que foram mágicos e mais uma lição de vida da Guiné Bissau.
Com os seus 29 anos, Maria*, está em Portugal, desde junho, como já escrevi. Veio a acompanhar o seu filho, que desde que nasceu tem uma doença grave e, por essa razão, foi evacuado para Portugal, ao abrigo do Acordo de Cooperação no âmbito da Saúde entre o Estado de Portugal e o Estado da Guiné Bissau. O menino tem 21 meses e está internado num hospital em Lisboa e a mãe, grávida, a viver, num hospital, estes meses de gravidez e preocupação.
E foi deste menino, que a mãe mais me falou, este outro filho que ficou no hospital e que ela não pode continuar a acompanhar, que sente que está sem ela e com quem se preocupa.
- Mas como ir ter com o outro filho - pensava eu - com um bebé recém nascido? Mas, como ficar com os dois filhos e cuidar deles até o mais velho ter alta e poder regressar à Guiné Bissau se nem tem alojamento em Portugal, família ou amigos, para poder sair do hospital como seu filho mais velho e estar com os dois, a desdobrar-se em cuidados, entre um e outro?
Olho, esta mãe, que calmamente dá de mamar ao seu bebé e penso na profundeza do drama humano que se estende por trás da paz que vejo e entendo o desespero das assistentes sociais do hospital e de uma associação que trabalha em parceria com o hospital, para encontrar solução de estadia e alojamento para esta mãe e para este bebé e seu irmão doente.
E penso na imensidão do gesto da Rita Calejo Pires, que com o seu marido Frederico, estão a arranjar um quartinho, em sua casa, para acolher esta mãe e estes filhos (o outro menino tem alta hospitalar mas ainda não saiu do hospital porque esta família não tem para onde ir e a mãe estava para ter este bebé) respondendo ao apelo da Associação Famílias do Mundo e penso na Sandra Bem e no Hélio Franco que também se prontificaram para acolher esta família e sinto-me forte e feliz, a acreditar no poder da bondade e do amor.
E agradeço o papel de "ponte" que me foi pedido para desempenhar, nesta vida.
Pego no bebé, a recordar o meu neto nascido dez dias antes, que me olha com aquele olhar dos recém-nascidos, onde todas os céus e estrelas deste mundo se diluem, e mudo-lhe a fralda, com amor. Tudo o que esta mãe tem foi-lhe oferecido. As roupinhas são de uma associação, as fraldas de outro, o boneco oferecido por uma voluntária, estes produtos de higiene levou-os a Rita.
Por vezes, os meus filhos e família próxima, penso que sentem, que eu não tenho uma noção de família, muito centrada neles como gostariam, e sinto que é verdade.
De alguma forma, a matéria que me formou trazia em si, este destino de ser mundo!
Sinto-me abençoada!
Amanhã, segunda-feira, Assistentes Sociais, Embaixada da Guiné Bissau, Segurança Social e Comissão de Protecção de Crianças e Jovens decidirão o futuro destes três seres, em rota de vida, em Portugal.
Amanhã, segunda-feira, Assistentes Sociais, Embaixada da Guiné Bissau, Segurança Social e Comissão de Protecção de Crianças e Jovens decidirão o futuro destes três seres, em rota de vida, em Portugal.
Nós, estamos aqui, com esta proposta de acolher esta família, no seio de outra família.
Que o amor prevaleça!
Nome de Maria - Chamei a esta mãe "Maria" em homenagem a Nossa Senhora, mesmo que a Associação Famílias não seja uma organização católica e o que me levava ali era o trabalho da associação e não nenhum movimento católico, mas a desprotecção daquele bebé só me lembrou Jesus),
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