terça-feira, 14 de agosto de 2018

OBRIGATÓRIOS. SÓ POSSO DIZER OBRIGATÓRIOS?

Ainda cheia de energia, mesmo depois de oito horas de actividades de praia-campo, maravilhosamente geridas pela Junta de Freguesia de Belém, depois de atravessar a cidade para ir à psicanalista e de volta a casa, falávamos sobre o que iríamos comprar ao supermercado e a miúda diz-me qualquer coisa, assim:
- É, é. É bué giro. Bués giro. Bués!

Não gosto de ouvir a miúda, a dizer "Bués" e, em casa, está proibida sendo que eu, e o meu filhos, fazemos coro em eco, em sintonia completa, neste proibição.

Logo, no nano-segundo imediato estava eu a repetir-lhe

- Criança! - e aqui o uso da palavra criança foi logo para colocar a nossa conversa, no contexto evidente, da assimetria das nossas vontades - Existem milhares de palavras para usares, logo, não uses "Bués! que eu não gosto. Usa "muito", "bastante" ou "imenso". OK? Essas palavras é que são para usar, não é "Bué" ou "Bués", OK? - conclui eu.

Resposta, pronta, da miúda já em tom reivindicativo

- Mas ... mas ... na minha escola, os meninos dizem. Dizem "Bué bués". E eu, também, quero dizer!

Odeio discutir trivialidades, irrita-me, e acho que, as plataformas de entendimento, são espectaculares para serem usadas, no nosso dia a dia, principalmente, quando se trata de regras de etiqueta, completamente arbitrárias que os adultos impõem às crianças (mas que eu imponho, na mesma, porque fui educada assim) e assim, resolvi finalizar, a conversa, com argumentos de peso.

- Olha, PRIMEIRO, a tua escola já não é a tua escola porque não vais continuar na mesma escola, logo, não tem sentido andares a anunciar que falas como os meninos da tua escola porque, ainda, nem os conheces e SEGUNDO, e mais importante, eu não te quero ouvir a dizer isso e eu, que sou a adulta, já te disse, muitas vezes que não se usa "bué" . Podes dizer, apenas , "muito giro"? OK?


A miúda, ficou em modo de "criança entusiasticamente revoltada"!


- QUÊÊÊÊÊÊ?- exclamou, dramaticamente - Agora, tenho de dizer tudo, que tu queres? É isso?

Tendo a conversa atingido este patamar de consenso, eu concordei, acenando com a cabeça e, obviamente, fiz o meu sorriso vitorioso o que alimentou, mais uma vez, a discussão pelo que ela continuou.

- É obrigatório? Agora só posso dizer "obrigatórios"? Achas bem? Achas? - e a miúda já estava em modo de profundo discurso ideológico.

- Então, era assim, os pais diziam aos filhos, o que eles falavam e eles, falavam tudo que os pais queriam? Achas bem? Só falavam "obrigatórios"? Achas bem?

Acredito, que as fronteiras entre uma criança educada e cordata e uma criança impertinente e mal-educada, podem nem sempre estar bem definidos na minha cabeça porque acho imensa graça à irreverência intelectual e, por vezes, tenho dúvidas sobre o caminho que traço na educação desta miúda e quando desato a rir, a ouvir a miúda usar estes argumentos hilariantes. E, também, prevejo que, com a idade, esta graça vai passar e eu vou deixar de rir, por tudo e por nada logo estamos apenas numa fase feliz da infância. Por último, acredito que será bom se tiver alicerçado na miúda, um pensamento crítico fundamental à vida, associada a um forte entendimento das vantagens de viver bem com os outros, vai ser bom para ambas, para o nosso futuro conjunto ou para o futuro dela seja com quem viva, no futuro.

E foi assim, mais um dia, antes do supermercado, banhos, jantar, cama, história e sono profundo (de ambas).

Abençoadas, férias da Junta de Freguesia de Belém! Amanhã, entre as 8h10 e as 17h45m, descanso o exercício da parentalidade.

2 comentários:

  1. Com a Ana insisti para que não utilizasse "calão", com o Dinis respirei fundo, com o Santiago... Bem não falemos do Santiago (até porque ele ainda não fala)! ��

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  2. A Aldinha ainda não chegou a essa fase , mas vai chegar...aqui em casa é totalmente banido. Tudo é arbitrário , mas são regras. Tal como as de saber estar , as linguísticas são iguais. São convenções sociais que quero q ela aceite. O que digo aos meus alunos é que a forma como nos expressamos é determinante e constitui - se como o nosso passaporte cultural...mas sei que será uma batalha.

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