terça-feira, 14 de agosto de 2018

BOLHA ?

Hoje, lá pelas sete e quarenta da manhã, ou melhor esta madrugada, eu já discutia com a miúda, sobre que sapatos se levam para as actividades de verão da Junta de Freguesia de Belém, sendo que a freguesia em si não interessa para o desenrolar do episódio que vou contar mas a referência a actividades de verão é central.

A miúda faz o segundo turno das actividades, de praia e de campo e, no primeiro turno, cada turno são duas semanas, cinco dias úteis completos, o tema do calçado apropriado para ir para a praia foi objecto de longas conversas e de ordens simples já sem qualquer tipo de paciência matinal, do género:

- VAI CALÇAR, IMEDIATAMENTE, AS SANDÁLIAS COR-DE-ROSA E PRONTO!!!!!!

O que ela acaba de fazer, de cabeça cabisbaixa, ar de martírio total e eu de irritação crescente porque, como já referi, odeio discutir o que é óbvio.


UM DUPLO MARTÍRIO! MEU E DELA!


E um martírio pouco valorizado pois, é um martírio que faz com que as minhas amigas, sem filhos destas idades, ou com filhos a sair destas idades, comentarem divertidas que as crianças são todas assim, teimosas, como se a teimosia fosse um pormenor de somenos importância.

Mas, o meu filho veio de férias ontem e dormia a solto solto, hoje, de madrugada, às tais sete e quarenta da manhã pelo que hoje eu resolvi não gritar:

- VAI CALÇAR, IMEDIATAMENTE, AS SANDÁLIAS COR-DE-ROSA E PRONTO!!!!!!

E disse-lhe, disse à miúda,  que podia escolher, o que quisesse, para calçar achando que estava tanto frio que se calhar nem iam à praia. Tranquilo.

E foi assim que hoje, a miúda aterrou no local onde esperam as crianças para seguirem para atividades de SAPATOS DE VERNIZ. Não há mesmo paciência.

Em casa, deveriam ter ficado as CROCS que comprei numa ilha nas Amoreiras, exactamente,  para a acompanharem nestas atividades de praia e campo mas, como acho que devemos sempre dar uma segunda oportunidade aos teimosos e afins, coloquei as ditas das sandálias na mochila ao mesmo tempo que avisei não simpaticamente

_ VÃO AQUI AS SANDÁLIAS COR-DE-ROSA PARA QUANDO ESSES SAPATOS TE MAGOAREM E PERCEBERES QUE É MELHORES CALÇARES ESTAS, OK?

Nota. Digo tantas vezes, "Ok" à miúda que ela está mesmo convencida que se trata de uma expressão do português mais profundo que ela conhece.

E lá larguei, a miúda,  no ponto de recolha das crianças das atividades de férias da Junta de Freguesia de Belém, ( nota que estas actividades são maravilhosas e eu agradeço profundamente a todas que as  imaginam e põem a funcionar) completamente agasalhada, tipo inverno, o que até disfarçou os sapatos de verniz (ou pele) e segui para a LOJA DO CIDADÃO, que o meu dia hoje tinha essa rota. Eram 8h e 5 minutos, acho que foi o meu melhor momento de entrega de criança de madrugada nas férias.

Ao meio dia, estava a sair da Loja do Cidadão com o assunto resolvido tipo " so far so good" depois de dar resposta ao Ofício XXXYZ da Segurança Social seguindo instruções da funcionária que me atendeu, às duas a almoçar e em amena cavaqueira em Cascais e só voltei a pensar na miúda lá para as cinco para telefonar ao meu filho se a podia ir buscar para eu não stressar no trânsito de regresso a Lisboa.

Chateada de eu não a ter ido buscar, a miúda, já em casa, obedeceu a todas as ordens simples que lhe dei e foi direita ao banho sem grandes protestos. Maravilhoso.
Mas quando já quase pronta, a entrar na banheira, diz-me assim:

- Tenho uma coisa aqui no pé. Uma ferida HORRÍVEL, podes ver?

Com tantas situações de saúde, tão graves , que a miúda atravessa co uma leveza extraordinária, achei estranho que tivesse uma dor horrível e perguntei-lhe se tinha caído.
- Não! Não caí mas tenho aqui uma dor, podes ver?

E pronto, eram, já outra vez, umas sete e quarenta quando eu peguei no pé da miúda, olhei e concluí.
- TENS UMA BOLHA NO PÉ! ISTO É UMA BOLHA NO PÉ CAUSADA PELOS SAPATOS QUE QUISESTE CALÇAR ESTA MANHÃ.

A miúda além da tristeza da dor, claro, nesta altura, olhou para mim interrogativa, como que a pensar no que lhe dizia mas sem perceber e não disse palavra o que é raro.

Eu olhei, confirmei a bolha e continuei cheia de paciência, genuína, porque me deu pena a miúda e sei como as bolhas doem.
- Olha, tens de perceber que foste dez dias às actividades e não te aconteceu nada aos pés porque foste de sandálias fofinhas, de borracha que são mesmo feitas para se andar na praia. Não magoam os pés. Comprei-as mesmo para isso. Com os sapatos da Joana (foi esta Joana que mencionei que lhe deu os sapatos) não dá. São para inverno, escola, meias, collants, percebes? Depois do banho tratamos disso, OK?

E assim foi.
Ela foi buscar a caixa dos pensos com as figuras Disney, eu fui procurar o Bepanténe porque acho que nisto de mazelas de crianças é sempre importante pôr qualquer coisa tipo medicamento para a criança ficar contente e quem sabe a pomada faz mesmo bem, e a miúda, vestiu-se e foi jantar em modo de silêncio.

Foi muito mais tarde,  já tinham passado as sete e quarenta da noite e já via televisão e o penso caiu que voltámos ao tema dos sapatos e das feridas.

Eu entendo, que frequentemente, quando alguma coisa não corre bem e a miúda percebe que foi teimosa ou viveu uma situação adversa mas iniciada por ela própria, a miúda cala-se e não diz palavra. Foi o caso de hoje mas como o penso caiu veio, então pedir-me para lhe colocar outro.

Eu disse que sim que não tinha importância, voltei solidariamente a colocar a pomada e, eu já estava, feliz e tranquila, a pensar que a aprendizagem sobre sapatos para ir para actividades praia e campo, génese de bolhas e cumprimento de ordens simples às sete e quarenta da manhã além do reforça da ideia de quem tem sempre razão sou eu, a adulta, estava tudo super aprendido quando a miúda olhando o pé me diz, calmamente.
- Pois, isto não é uma bolha no pé. É um GALO no pé.

- GALO? TIPO GALO NA CABEÇA? NEM PENSAR. - podia, eu, ter respondido à miúda mas limitei-me a re-afirmar.

- É uma bolha! - e  decidi que não lhe volto a dar a opção de escolher sapatos, às sete e quarenta da manhã enquanto durarem as actividades da praia campo da Junta de Freguesia de Belém
As sandálias cor-de-rosa

2 comentários:

  1. Eliana uma história de amor, que tem gerado tantos gestos de amor�� continua Luisa, adoro as tuas crónicas.

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  2. A Eliana, tal como eu, teve que partir por diversos motivos, de uma cultura diferente, de um clima diferente, e de sabores diferentes. Como foi difícil! Mas, depois lá nos fomos integrando ou incluindo... É preciso coragem! Um Beijinho Eliana por saberes vencer este desafio.

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