quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A CAIXA DO PRESENTE

No Natal, recebeu uma boneca numa caixa, uma cabeça de gatinha para pentear e fazer tranças, numa caixa em que o que me fez comprar a gatinha foi por ter uma menina como ela, cheia de caracóis e sorridente e ter pensado que poderia dizer que tinham sido os pais que tinham pedido a alguém para lhe comprar esse presente de Natal.
Ela amou, e amou ainda mais a história que lhe contei de como o pai tinha trabalhado muito na Guiné Bissau, para juntar muito dinheiro e mandar comprar este presente extraordinário para ela, a uma pessoa em Portugal para lhe dar no Natal.
Acabava a noite de Natal e o meu filho Francisco arrumava a sala e disse-lhe.
- Olha, Eliana, não precisas da caixa da boneca, pois não? Vou deitar fora.
A miúda virou-se, correu para a caixa e respondeu.
- Não, não, não faças isso. Vou guardar. Um dia, sabes eu não vou brincar mais com ela e posso querer dar a uma menina, minha amiga ou dar a uma menina pobrezinha.
- Sim!- disse o Francisco - Mas para dar a boneca precisas da caixa?
A boneca que quando der quer dar com a caixa.
O ar da miúda foi ao mesmo tempo de surpreendida e de suave censura.
- Claro que sim! - respondeu como se explicasse o óbvio - Mas tu gostavas de receber um presente sem caixa?


E é assim. esta capacidade de antecipar, de se colocar na perspectiva do outro, em caridade que nos surpreende todos os dias.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

VIVER O NATAL PELO OLHAR DE UMA CRIANÇA

Estamos na entrada de um hotel e a Eliana, afasta-se de mim e dirige-se a um presépio que está na zona de estar
De longe, vejo-a imóvel, em frente ao presépio. Uns minutos depois, volta a aproximar-se de mim e perguntou-lhe:
- Foste rezar ao Jesus?
- Sim!
Fico feliz e pergunto-lhe, entusiasmada, se estava a agradecer tudo de bom que acontecia, nestes dias de Natal dos presentes e de tantas coisas boas.
- Ah! E que disseste?. disse eu - Foste agradecer o nosso Natal maravilhoso?
- Falei na língua de Jesus. - responde-me com muita tranquilidade e percebo logo que partilha algo de profundamente íntimo.
Num instante, percebo que não estaria a agradecer os presentes de Natal e estas coisas mais terrenas em que pensei e pergunto-lhe, curiosa e perplexa, como é que tinha falado na língua de Jesus.
- Falei de boca calada. - diz-me sorrindo como se soubesse desde sempre que eu entenderia tudo e funde-se em mim, num terno abraço.
Muito especial, esta miúda.
Muitas vezes, sinto que cuidar desta criança é um imenso privilégio.
E que cuidar dela não é exactamente o que faço todos os dias porque o que sinto, é que ela é que veio para cuidar, cuidar de nós, cuidar dos outros.
Muito especial, esta miúda, que me trás a essência da vivência de Natal.

Eliana e o presépio onde falou com Jesus, na língua de Jesus.

Partilho!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A CAMPANHA PRESENTES NUMA CAIXA

A Eliana, foi quem trouxe, de uma forma mais afectuosa a Guiné Bissau até ao meu universo de vida. E, este ano, esse afecto que sinto pela Guiné Bissau que conheço através dos olhos de uma criança, concretizou-se na campanha que, como presidente da Associação Famílias do Mundo, me envolvi este mês de Novembro.

UM PRESENTE NUMA CAIXA

É uma campanha que traduz este sentir que, com a generosidade que temos dentro de nós, o desejo de transmitir aos nossos filhos e pessoas do nosso coração o valor imenso da solidariedade, podemos mudar, um dia, a época de Natal de uma só criança, de duas crianças, de quatro, de oito de um imenso número de crianças que, vivendo em situação de pobreza extrema, nada esperam e tudo recebem.

E um novelo de amor se desenrolou para "tricotar" esta campanha.

A Marisa Costa, estudante das minhas classes de relação escola-família nos anos noventa que me ligou a falar de uma campanha de Natal, na sua escola, onde se falaria dos sonhos dos meninos da Guiné Bissau e se eu saberia quais eram os presentes que os meninos de Catió, a localidade onde a Eliana vivia com a sua família, sonhavam para este Natal.

Eu sorri. Os meninos de Catió não sonham co, presentes de Natal como podem sonhar os meninos de Lisboa, Moita ou Montijo. Não existem lojas para fazer sonhar, não existe uma televisão a produzir sonhos nem mesmo o vizinho, o amigo, o filho do professor. A pobreza e a ausência de recursos é largamente partilhada por todos, na tabanca, no bairro, no Sul e no Norte de Catió.

Vejo a irmã que gere a escola da missão, a escola de  São Bento, a sorrir a mesmo tempo que escreve que os meninos de Catió  não sabem querer um presente de Natal porque nunca o tiveram.

E fico parada a pensar na impossibilidade desta acção pensada pela professora Marisa.

E comento preocupada com outra estudante dos anos noventa, a professora Eunice Ribeiro, que de tanto pensar "fora da caixa" me fala " fora da caixa"mais uma vez, perguntando se eu conheço a campanha dos presentes numa caixa de sapatos.
Eu ri-me. Só mesmo ela.
E assim, me contou, que são caixas de sapatos que se oferecem cheias de pequenos presentes que se oferecem às crianças no Natal, em campanhas desenvolvidas um pouco por todo o mundo no campo da solidariedade. Amei a ideia e fui logo pesquisar na internet.

E amei a ideia porque me fez sentido e tendo como pano de fundo a experiência da Eliana que durante mais de uma ano nunca ligou a brinquedos e no supermercado se fascinava e queria trazer para casa toda a fruta, todo o peixe, toda a carne.

Uma caixa com um brinquedo, um artigo de higiene, um artigo de vestuário e material escolar. Tão fantástico como realista.

E pensei logo em Catió e nas escola de São Bento e na possibilidade de as irmãs distribuírem os presentes pelos seus alunos, do pré escolar ao fim do secundário.

E era nisto que pensa quando por uma feliz coincidência do destino, conheci a guineense Muna Sila, advogada em Bissau, recém regressada de Portugal, amiga da minha amiga Nafi, também guineense e estudante na Universidade de Coimbra, a cidade onde nasci e a Muna me falou do seu desejo em oferecer presentes de Natal a crianças doentes em Bissau.

Num instante, este mar de afectos. organizou-se dentro de mim e fui escrever a publicação que deu origem à campanha UM PRESENTE NUMA CAIXA e que aqui partilho.





domingo, 25 de novembro de 2018

UMA MINI VOLUNTÁRIA

TOLERÂNCIA - VERSÃO ELIANA

Os trabalhos de casa implicavam definir a palavra tolerância e eu estava tentar explicar, por palavras simples, o que era a tolerância quando a Eliana me interrompe assinalando que já tinha percebido.
Eu interrompo a explicação e escuto-a.
- Sim, sim, eu estou a perceber. É ser amiga de uma amiga chata. - e sorriu. 
Uma criança maravilhosa, fotografada a 25/11/2018
Maravilhoso. Achei que tinha percebido mesmo bem. 

sábado, 10 de novembro de 2018

TERTÚLIA BIBLIOTECA CALMARIA

Hoje, sábado dia 10 de Novembro, a Eliana esteve a contar a sua história na Tertúlia Biblioteca Cal'maria e foi uma experiência surpreendente, como já tinha sido o convite para participar.

O convite veio via Facebook, através da Anabela Bento.

"Olá Luísa. Gostávamos de lhe fazer um desafio.Queria convidá-la para uma biblioteca cal'maria.
E o que é uma biblioteca cal'maria?
Adiantando o conceito e o nosso pedido, neste momento a actividade que lhe solicitamos seria ser um dos livros na nossa biblioteca, num enquadramento de combate à exclusão social e "curvas no caminho" que nos levam ao "coração no sítio certo"; isto tudo entre outros “livros humanos” diferentes a falarem sobre as suas diferenças e esperanças num mundo que as respeita cada vez mais.
A cal'maria é um projecto de empreendedorismo social e tem, também, esta função de conectar pessoas e abanar consciências.
Poderá ver o caminho já palmilhado em:
www.calmaria.pt
ou em
https://www.facebook.com/calmariasocial?pnref=sto
Como referido, neste momento o desafio que queremos lançar-lhe salta do sorriso para as páginas da vida. Estaremos a abrir as portas à biblioteca humana cal'maria no dia 10 de Novembro, entre as 15h e as 18h30m.
A sua missão, caso a aceite, é tornar-se livro e nessas horas dialogar com quem o escolher para ler. O importante aqui, como bem sabe, é a partilha de histórias de vida e o diálogo, inspirando os outros. Nesse dia teremos 6/8 livros na estante, graciosamente “espalhados”, e seria uma alegria imensa se a sua capa estivesse à vista e o seu título no arquivo do dia.
Dito isto, ficamos a aguardar que os ventos desse lado sejam favoráveis a esta viagem.
Aceite o desafio, solicitamos o título e a sinopse do livro, Luisa. Se preferir que lhe ligue para explicar melhor o conceito, envie-me o seu número, por favor.Com c'alma, alma e o coração no sítio certo, aguardamos ansiosamente a sua resposta.

Eu li a mensagem e não percebi nada. E quando não percebo nada mas tenho aquela intuição de que deve ser algo mesmo interessante digo que sim. E foi o que fiz. respondi que achava muito interessante e expliquei que o conceito me parecia muito giro, que cada pessoa, de facto, é uma história, uma história de vida que pode ser contada e dei os parabéns.Perguntei as horas da iniciativa porque pensei logo levar a Eliana e expliquei que o meu livro era escrito a duas mãos, as minhas e as da Eliana, só tendo sentido, ter na capa, nós as duas.
E acrescentei O título é a Viagem da Eliana e conta a história verídica de uma criança que com quatro anos chegou a Portugal, sem o acompanhamento de familiares e da família que a acolheu.
.











quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O MELHOR DE DOIS MUNDOS

 Uma criança, de seis anos, cresce entre dois mundos, chegou a falar balanta e, agora, já só fala português e algum crioulo da Guiné Bissau.

Chama mãe, a quem, aqui em Portugal, a está a cuidar na ausência dos pais, mas sabe muito bem quem são os seus pais e irmãos na GuinÉ Bissau e, quase todas as semanas, fala com eles quando a internet o permite ou recebe fotos da família desde a tabanca de seus pais.

Hoje mesmo, nas suas brincadeiras, entre outras coisas, imaginou-se com dezoito anos, já casada e com filhos, a visitar a mãe portuguesa e a mãe guineense, brincadeira que só interrompeu quando foi tempo de sair .
Na rua, encontrei-a a saltitar, no passeio, d com ar feliz.

Nos cabelos, quando a fotografei, prendeu-me o olhar um delicioso pormenor do cabelo, com o laço branco de seda, tão europeu a apanhar umas tranças cheias de contas, tão africanas.
Numa só criança, o melhor de dois mundos ...

terça-feira, 6 de novembro de 2018

ESTE MENINO DE SUA MÃE

Leio os relatórios do pequeno menino. O menino de sua mãe.

Tem menos de dois anos e veio para Portugal com um processo de evacuação médica ao abrigo dos acordos que ligam Portugal e alguns dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para assegurar assistência médica em Portugal aos cidadãos destes. Entre eles, encontra-se um dos países mais pobres do mundo, a Guiné Bissau.

Não sei, quanto este menino esperou para ser evacuado, quanto tempo a sua mãe rezou para que viessem cedo para Portugal  e voltassem depressa a casa,  mas o tempo desta espera, marca o seu pequeno corpo deformado.

Está quase cego.
A mão esquerda permanece fechada a contrastar com a direita. 
A perna esquerda dobra-se ao peso, a direita não suporta o corpo.

Não sei, quanto este menino esperou para ser evacuado, quanto tempo a sua mãe rezou para que viessem cedo para Portugal  e voltassem depressa a casa,  mas o tempo desta espera marca o seu curto desenvolvimento.

Não fala.
Não bate palmas.
Não gatinha.

Não sei, quanto este menino esperou para ser evacuado, quanto tempo a sua mãe rezou para que viessem cedo para Portugal  e voltassem depressa a casa,  mas o tempo desta espera marca o amor dos dois.

Não é bom ser doente na Guiné Bissau.
Não é bom ser considerado uma desgraça.
Não é possível, na pobreza, mudar o mudo.


Leio todas as complicações que teve em bebé e penso na imensa regalia que é termos acesso aos cuidados de saúde primários, estarmos na Europa. tantas limitações que se poderiam ter evitado com medicamentos de acesso fácil na Europa.

Este menino teve complicações e hoje tem graves sequelas porque nasceu na Guiné Bissau,  sem acesso a saúde e quando a teve, através do processo de evacuação médica, foi tarde.

Este menino de sua mãe. Este menino de sua mãe.
Não foi à guerra. De balas não foi trespassado.

Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!".
Este menino de sua mãe. Este menino de sua mãe.
Que malhas este Império tece! ( Fernando Pessoa)

O menino de sua mãe
                                 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

CARTA DE NATAL


EXISTEM BRUXAS BOAS? EU QUERO SER MUITO A AJUDAR E SER BOAZINHA.

- Vá lá! Vá lá! - pedia-me, dias e momentos seguidos, que a levasse à festa do Haloween.

Comemorou o Haloween, com a Mónica Abreu, ainda em casa a aguardar a cirurgia.
Comemorou o Haloween, no jantar do Dia das Bruxas, no Jardim Botânico da Ajuda, o ano passado e reparámos como era divertida, a festa, como concurso de decoração de abóboras, Jogo de pistas e concurso de máscaras.Fui buscá-la à escola e fiz a surpresa de levar um vestido e um chapéu de bruxinha
E mostrei o nariz de bruxa que tinha
Uma saída de escola feliz e divertida! 
comprado para mim.
Ficou encantada. Deu gargalhadas e quando soube que voltávamos ao jantar do Dia das Bruxas, no Jardim Botânico da Ajuda, como no ano passado, começou logo antecipar.

Calou-se, pensou e voltou com uma pergunta.
Pais e filhos, famílias, todos a elaborarem as suas abóboras. 

Uma bruxa boa! 
- Posso ser uma bruxa boa? As bruxas boas existem? Eu

quero ser uma bruxa boa, a ajudar o Jesus, muito bem educada.

Eu só, pude sorrir.

Esta miúda faz pontes onde nunca as equacionei.

O nosso trabalho final. Faltou fazer as cavidades


A decorarmos a nossa abóbora em 2018


Jantámos o jantar assombrado






segunda-feira, 29 de outubro de 2018

DESCULPA, ENSINEI-TE A LIÇÃO ERRADA

O dia foi longo e cansativo.
Escola desde as nove, aula de dança das 17h30 às 18h30 e, uma mãe extenuada a ir buscar, uma criança, quase 30 minutos depois, do fim da aula. 

Mas o destino não era, logo a nossa casa porque ainda era preciso passar, no supermercado, para umas compras, urgentes.
Tenho a ideia que o cansaço, tanto em adultos como em crianças, é muito destruidor  do equilíbrio interno, que todos temos e das relações interpessoais  harmoniosas, que todos desejamos.
Logo, quando comecei a ouvir a Eliana, em modo de ladainha quase chorosa, de que eu comprava sempre tudo ao meu filho Kiko e nada a ela, que eram sempre as coisas para o Kiko que eu comprava e nada para ela,  que queria imenso jantar pizza e eu não lhe comprava,  confesso que não liguei muito e, avancei pelo supermercado, em modo de surdez selectiva.


Mas a ladainha quase chorosa, transformou-se em ladainha chorosa e, como o meu cansaço já era muito considerável e quero ver a criança feliz, disse que sim, que lhe comprava a pizza. 
Assim, logo de seguida, em tranquilidade sonora, continuámos a avançar pelo supermercado, a procurar os essenciais frescos para o pequeno almoço e o que é necessário ter, de lanches ( pão e sumos), quando se tem prevista, uma manhã no Hospital de Santa Cruz, na consulta externa e tudo, neste momento de rotina de compras, se passava tranquilamente.

Mas a paragem, na fila para as caixas de pagamento, introduziu novo factor desencadeador de ladainha infantil, não chorosa. Algures, por cima dos chocolates e chupa-chupas, anunciava-se umas saquetas brinde de princesas, embaladas, que mudavam de cor.
Como a criança já sabe ler muitas coisas, conseguiu, depois de descobrir, pelo desenho, que as saquetas eram com princesas e que as princesas miniatura, teriam luz.
A criança leu a frase "mudam de cor"! Fantástico!
Mas fantástica, não foi a teimosia que a mesma criança exibiu, insistindo de que eu tinha de lhe comprar uma princesa, naquele preciso momento e como não fiz, passou directamente,  para a ladainha chorosa e muito chorosa.

Cansaço mais cansaço, resolvi ignorar, ainda fui pagar a Segurança Social da nossa funcionária no multibanco com a criança em modo amuado e, já no carro, as anteriores ladainhas, desaguaram num mar de lágrimas. 
Um birra de consumo, no seu melhor.  
Ora, nestas situações, na maior parte das vezes, apetece-me ralhar violentamente com a criança, zangar-me mesmo, mas, hoje, ainda cheia de tranquilidade ou infinita paciência versus reflexão profunda, abri a porta do prédio, sentei-me nos degraus do primeiro patamar e disse-lhe, colocando-a no meu colo.
- Desculpa, ensinei-te a lição errada. Nunca te devia ter ensinado que o amor das pessoas, umas pelas outras, se via pelas coisas que lhes compramos e, quanto mais se compra, mais se gosta de uma criança. Desculpa, não é preciso comprar coisas para que uma criança possa saber e sentir que é amada. Isso, vê-se no brilho dos nossos olhos quando olhamos para ela, nos olhos, e ela sabe, logo, que gostamos, muito, dela. Percebes? 

A criança parou de chorar e olhou para mim, em modo de surpresa total, não sei se pelo momento inesperado de afecto, se pelas palavras que eu falava.

- Desculpa! - insisti eu - E eu sei, muito bem, que não foram os teus pais que te ensinaram que quantas mais coisas se compram, mais se gosta de uma criança, porque eles gostavam mito de ti e nao te compravam nada, não era? Foi tudo, eu, que te ensinei! Desculpa.

- Pois, na Guiné não compravam nada. - e parou um segundo - Não havia nada.

Eu olhei para ela e sorri

- E olha, como gostavas deles e eles de ti, sem supermercados e caixas com princesas que mudam de cor.

A criança, olhou para mim e afastou-se restabelecida.
A meio das escadas, já falava do jantar sem se lembrar mais da pizza e perguntava se havia mais canjinha como tinha levado para a escola, esquecida dos melodramas anteriores.

E eu, fiquei a pensar, no que ensinamos de errado às crianças,  nestas e em outras situações. Uma luta!
Fotografia desde a ATM onde eu pagava as contas e a criança aguardava.








MATERNIDADE

Hoje, no minha vida como voluntária da Associação Famílias do Mundo, associação de que também sou presidente, fui visitar uma jovem mulher, que tinha tido um bebé em Lisboa.
Guineense com 29 anos, esta mãe, e daí a razão da minha ida à maternidade para a visitar, chegou grávida, a acompanhar um filho doente, que se encontra ainda internado, há quatro meses atrás, sem familiares nem amigos em Portugal e a Embaixada da Guiné Bissau, com quem a Associação Famílias do Mundo tem um protocolo de acompanhamento social, foi informada da situação de desprotecção em que se encontra em Portugal e eu, soube do caso, neste contexto.
Esta semana que passou, já tinha colocado um pedido no Facebook de acompanhamento desta mãe e do seu filho recém-nascido, e a Rita Calejo Pires, já se tinha disponibilizado para acolher esta mãe e filhos, em sua casa. E também, a Renata Azevedo já me tinha falado desta situação e pedido ajuda.
Por isso, sem visitas de familiares nem amigos porque ainda não os tem, em Portugal, foi fácil ter a senha de VISITANTE, na apinhada sala de espera, cheia de visitantes, para visitar esta mulher.
- Que melhor destino para um domingo, dia do Senhor, para um mulher-mãe, católica como eu? - pensei eu a pedir o cartão de visitante e achei maravilhoso estar ali.
Assim, procurei, com expectativa, a cama x, na sala y, e encontrei a cama, a mãe e o recém-nascido, numa enfermaria cheia de mães e visitantes. Encontrei a mãe, a única sozinha naquela enfermaria, debruçada sobre o seu bebé.
Recebeu-me, com um sorriso deslumbrante num olhar brilhante, e reconheci-a, logo , como uma guineense-balanta, como a Eliana, e a empatia foi imediata.
- Olá, sou Luísa, da Associação Famílias do Mundo, sou desta associação que está a encontrar uma família, para a receber aqui em Portugal - e eu sorri - sei que já conheceu a Rita, a nossa voluntária, e agora venho eu, apresentar-me. Como está? - e olhando o bebé, continuei - É lindo, o seu bebé!
Há, momentos da vida, que sinto que ,toda a minha vida, faz sentido e este, foi um deles, naquela ligação imediata que senti entre aquela mulher, que poderia ser a Eliana já mulher, e eu, com os meus 58 anos, tão europeia e tão do mundo, mãe e avó.
- Sim, conheceu a senhora Rita. - disse a mãe, sorrindo e cumprimentando-me - Quer se sentar? - e ajeitou-se, na cama, para me dar espaço.
Fico, sempre, tocada pela capacidade que, algumas pessoas, possuem de, mesmo numa situação de fragilidade extrema, serem abertas ao outro e se preocuparem com ele.
Este movimento de me oferecer espaço para que me sentasse significou isso mesmo.
Extraordinário!
Não posso partilhar todos os detalhes dos momentos que passei, ali na maternidade, com aquela mãe, mas digo-vos que foram mágicos e mais uma lição de vida da Guiné Bissau.
Com os seus 29 anos, Maria*, está em Portugal, desde junho, como já escrevi. Veio a acompanhar o seu filho, que desde que nasceu tem uma doença grave e, por essa razão, foi evacuado para Portugal, ao abrigo do Acordo de Cooperação no âmbito da Saúde entre o Estado de Portugal e o Estado da Guiné Bissau. O menino tem 21 meses e está internado num hospital em Lisboa e a mãe, grávida, a viver, num hospital, estes meses de gravidez e preocupação.
E foi deste menino, que a mãe mais me falou, este outro filho que ficou no hospital e que ela não pode continuar a acompanhar, que sente que está sem ela e com quem se preocupa.
- Mas como ir ter com o outro filho - pensava eu - com um bebé recém nascido? Mas, como ficar com os dois filhos e cuidar deles até o mais velho ter alta e poder regressar à Guiné Bissau se nem tem alojamento em Portugal, família ou amigos, para poder sair do hospital como seu filho mais velho e estar com os dois, a desdobrar-se em cuidados, entre um e outro?
Olho, esta mãe, que calmamente dá de mamar ao seu bebé e penso na profundeza do drama humano que se estende por trás da paz que vejo e entendo o desespero das assistentes sociais do hospital e de uma associação que trabalha em parceria com o hospital, para encontrar solução de estadia e alojamento para esta mãe e para este bebé e seu irmão doente.
E penso na imensidão do gesto da Rita Calejo Pires, que com o seu marido Frederico, estão a arranjar um quartinho, em sua casa, para acolher esta mãe e estes filhos (o outro menino tem alta hospitalar mas ainda não saiu do hospital porque esta família não tem para onde ir e a mãe estava para ter este bebé) respondendo ao apelo da Associação Famílias do Mundo e penso na Sandra Bem e no Hélio Franco que também se prontificaram para acolher esta família e sinto-me forte e feliz, a acreditar no poder da bondade e do amor.
E agradeço o papel de "ponte" que me foi pedido para desempenhar, nesta vida.

Pego no bebé, a recordar o meu neto nascido dez dias antes, que me olha com aquele olhar dos recém-nascidos, onde todas os céus e estrelas deste mundo se diluem, e mudo-lhe a fralda, com amor. Tudo o que esta mãe tem foi-lhe oferecido. As roupinhas são de uma associação, as fraldas de outro, o boneco oferecido por uma voluntária, estes produtos de higiene levou-os a Rita.
Por vezes, os meus filhos e família próxima, penso que sentem, que eu não tenho uma noção de família, muito centrada neles como gostariam, e sinto que é verdade.
De alguma forma, a matéria que me formou trazia em si, este destino de ser mundo!
Sinto-me abençoada!
Amanhã, segunda-feira, Assistentes Sociais, Embaixada da Guiné Bissau, Segurança Social e Comissão de Protecção de Crianças e Jovens decidirão o futuro destes três seres, em rota de vida, em Portugal.
Nós, estamos aqui, com esta proposta de acolher esta família, no seio de outra família.
Que o amor prevaleça!
Nome de Maria - Chamei a esta mãe "Maria" em homenagem a Nossa Senhora, mesmo que a Associação Famílias não seja uma organização católica e o que me levava ali era o trabalho da associação e não nenhum movimento católico, mas a desprotecção daquele bebé só me lembrou Jesus),