sábado, 12 de maio de 2018

BABA YAGA

- Baba Yaga - leio eu
-  São duas bruxas? - pergunta

-Não, é só uma Baba Yaga.

- Baga e Aga. São duas. - afirma.

- Baba Yaga é só um nome. Como tu, tens três nomes e és só uma.
- Baba e Agá. Não estás a perceber. E-A-G-A.
Desisto.
- Mas porque complicam com os títulos dos contos que podem vir a ser usados para adormecer uma criança?

- A bruxa não poderia chamar-se apenas "Baba"ou "Agá" ou, por hipótese, bruxa "Tucha", "Ticha" ( Sorry Ticha Balula) nomes perfeitos para bruxas?
Esta colectânea de contos é fantástica.
Bem escritos, variados, simples e rápidos de ler.
Estou a amar.
A uma história por noite dá para 17 dias.
Quase um mês!!!!

PIQUENIQUE DE DOMINGO ou a natural continuação de uma Festa-de-Pijama.

- E que se faz a seguir a uma Festa-de-Pijama?

Eu, nunca tinha pensado que uma Festa-de-Pijama, super divertida onde não entram rapazes, tinha uma natural continuação, no dia seguinte, num, igualmente importante, evento onde continuam a não entrar rapazes mas podem entrar bonecos.

Mas, rapidamente, hoje, compreendi que é óbvio que tem.

- Um piquenique!!!! Vamos fazer um piquenique, nós as duas! - disse a miúda.
A manta de uma das camas da Festa-do-Pijama, do dia anterior, é esticada no chão da sala e para este chão-da-sala-de-nossa-casa, reino maravilhoso do imaginário de uma criança-menina-de-seis-anos, onde irão convergir todos os bonecos espalhados pela casa, toda a loiça de chá e, mais tarde, depois desta etapa concluída, as comidas roubadas ao espaço cozinha de brincar, hoje de folga. Hoje, o espaço quarto cor-de-rosa, pode ficar, toda a manhã, a dormir a sono solto em santo descanso.
- Há memórias que nos acompanham a vida inteira!- penso eu, para me relaxar
- Ok! - respondi eu, na convicção que brincar é bom, para as duas.
Assim, e seguindo um protocolo que só a miúda conhecia mas, em si mesmo, complexo, posicionaram-se em cima da manta verde de cordeirinhos azuis, certamente, vindos directamente do imaginário de Saint-Exupéry, bonecos, peluches, animais, unicórnios, Barbies e Princesas Disney, cada um com os seus amiguinhos, lado a lado.
Peluches na área 1, Barbies e Princesas Disney na área 2, bebés na área 3, animais na área 4. Uns a necessitar de apoio para se manterem, sentados outros em possibilidade de se moverem para sentar e um cão labrador como já tinha um pequeno osso na boca, foi excluído.
Percebi, assim, que, neste piquenique, tudo começa a comer ao mesmo tempo, não sendo tolerável aparecer já de osso na boca, mesmo sendo um adorável, super realista, cão de 5 cm.
Em termos de organização e desenvolvimento do enredo, tomei conhecimento que eu ficaria com as Barbies e Princesas Disney porque é dia da Mãe e a Eliana, com os bebés, também, porque é dia da mãe, logo ela própria fará de mãe, neste piquenique.
- Olha, o piquenique é desde manhã até à noite, estás preparada? - diz-me a miúda entusiasmada.
Upsss! Pareceu-me assim, um horário um pouco alargado, demais e temi, não sobreviver, na versão tranquila e cooperante de mãe que normalmente consigo manter aos domingos e feriados mas não arrisquei partilhar estas dúvidas existenciais.
A miúda olhava-me feliz, com dois olhos a dobrar tamanho de felicidade, Sendo, minha prioridade de vida, fazer a miúda feliz, sorri concordando sem mais explicações ou perguntas. ..., bem, e de certa forma, senti também que já estava contagiada pelo "mood" piquenique onde não entram rapazes e tudo é maravilhoso, perfeito e único e senti-me também feliz.
- Vamos começar! - anunciou a miúda, cheia de alegria - Hoje é dia da Mãe e Dia de Não-mexer-no telemóvel. OK, OK; OK ????
Eu acedi, sorrindo e avancei.
Disponho-me, então, a começar a beber o imaginado chá que era o menu central do piquenique mas ainda não era o tempo.
- Espera!!!! Eu vou começar por ver se estão todos com o coração bem ou não. Não te preocupes, que eu vou tratar de todos.
Percebi, que foi um momento "Doutora Brinquedos" misturado com a experiência de vida desta criança que acha importante este pormenor de assegurar que tudo está bem, em termos de saúde com os participantes, quando se tem pela frente um mega evento como é um piquenique depois de uma Festa-de-Pijama.
E senti que era mais um sentir de que as crianças são complexas, muito mais complexas do que podemos pensar.
- Pronto. Está tudo bem. Vamos começar! Dás-me a tua chávena para eu colocar o chá? - diz-me sorridente.
E pronto, aqui vamos nós brincar a duas e só interrompemos para ir almoçar!
Abençoada infância e abençoado é quem dela usufrui.
Partilho!

TUTORIAIS DO YOUTUBE

Hoje estou a escrever sobre o universo das bonecas Barbies, moda e beleza ou, como os tutoriais do YouTube produzem consequências práticas gigantes e deixo a miúda a entreter-se com o meu telemóvel, para eu terminar, qualquer coisa, que requeira silêncio.

É que uma coisa que a Eliana percebeu é que no YouTube mostram coisas que se podem fazer na vida real. E já sabe aplicar a terrível palavra "Tutorial" no contexto certo.

- Vi um tutorial, posso fazer?

E pronto, os minutos de sossego “comprados” ao YouTube sempre me saem muito caros.
Com a agravante que, eu própria, por vezes, também me entusiasmo. Foi o caso!

Partilho o resultado da criação de um biquini a partir de um balão e de os cabelos maravilhosos que resultaram após HORAS a seguir o tutorial de alisamento de cabelos Barbies disponível no YouTube: versão com detergente da loiça e amaciador de roupa e versão shampoo e condicionados.
A miúda amou e os resultados foram brilhantes.
Infelizmente, o desejo de experimentar não permitiu a necessária foto do antes para compararem com o depois mas, podem acreditar, o estado dos cabelos das bonecas era tipo “melhor deitar para o lixo”.

TODOS MORTOS



São oito da noite e já estou cansada de um dia cheio de actividades logo resolvo cortar a conversa.

- Olha, mas tu não vais comer camarões? Não estavas a dizer que querias? Então?

- Sim! - responde ela, sempre de argumento pronto - Vou comer porque estão todos mortos.

E continua.

- Achas que ia comer se estivessem vivos? Coitadinhos, já não vão ter filhos filhos das suas barrigas invisíveis.

Bem, deixo as preocupações ecológicas e centro-me neste dado novo "barrigas invisíveis". Nunca a tinha ouvido falar disto.

- Barrigas invisíveis? Que é isso?

Explicação pronta.

- Olha, os peixes estão com os filhos dentro da barriga mas não se vê. São muitos, muitos filhos. Sabias?

Nesta altura começo a pensar que o meu gosto por ovas está a ser profundamente questionado.

- Pois. Mas sabes se não os tivessem morto não se comiam. É assim, comemos o que matamos. Agora só queres comer sopa? Legumes?

E houve ali um minuto de silêncio constrangedor para ambas.

- Não, eu também gosto muito de plantas.

POIRE

- Posso beber? Onde diz pêra? - e olha para a garrafa do sumo que eu bebo a tentar ler “pêra”.

- Aqui não diz pêra! - explico eu - Diz pêra, em francês “POIRE”! É francês.

- Ah! pois! - e ela bebe um gole de sumo, comentando, imediatamente, o gosto do sumo.

- Sabe a francês!

E eu, oiço, começando, imediatamente, a rir com as coisas que ela inventa.

A TODA A HORA!

Por volta das seis horas da manhã, a Eliana acordou a vomitar.
Umas horas de sono mais curtas no domingo, a que se juntaram as de sexta e sábado já em si curtas, e três dias de escola, segunda, terça e quarta são suficientes para o cansaço invadir a Eliana e os vómitos de bílis se manifestarem de madrugada.
Nada que eu não tivesse a prever, por isso, tudo tranquilo.

- Mãe, estou mal disposta! - e lá acordou a miúda em modo de calmaria.

E foram vómitos constantes até perto das nove da manhã quando voltou a adormecer em sono profundo até perto do meio dia.
Sossegada e tranquila acordou e perguntou logo.
- Hoje, é dia de escola?
- É, mas tu não vais, estás doente. - respondi eu como habitualmente.
- Ah! Pois! - respondeu
E contrariamente ao habitual não perguntou se podia ir ver televisão.
Passou o resto da manhã meia murcha, não aceitou nenhum tipo de comida e eu desmarquei o trabalho que tinha, nessa tarde, para a ficar a observar.
Quando percebeu que eu afinal não ia trabalhar e ficava com ela em casa melhorou rapidamente. Começou a falar e a sorrir mas manteve-se deitada na cama.
- Parece-me que estás cansada. - disse eu - Queres ficar na cama?
- Um pouco! - disse ela e ficámos as duas na cama, eu a trabalhar e la a olhar para o ar.
Ao almoço comeu qualquer coisa e depois veio para a sala desenhar tudo em modo de tranquilidade excessiva pelo que eu, nos múltiplos telefonemas que fiz ou atendi, fui sempre dizendo que a miúda estava doente.
Chegaram as três e meia, e, na escola, que se situa mesmo por detrás de nossa casa, começaram a chegar ao recreio os colegas de turma da Eliana e o barulho das suas brincadeiras invadiram o sossego da sala onde a Eliana desenhava.
A Eliana levantou-se e abeirou-se da varanda para a ver os colegas.
Minutos mais tarde, eu comecei a ouvir as exclamações dela e dos colegas, a tentarem comunicar entre si, super alegres de se verem.
Partilho uma das frases que, a Eliana, gritou ao colegas:

- Manel, eu não pude ir à escola porque tive aqui em casa doente, A TODA A HORA!

PERCEBES????






Nota: "a toda a hora" achei lindo!

A NATUREZA É REALEZA



- Mãe, já mataste algum animal?

Este fim de tarde desenrolava-se tão tranquilo que, aquela pergunta, pareceu me uma chuva repentina, numa tarde de verão.

- Não! - respondi eu, com rapidez, na tentativa de repor, rapidamente, a tranquilidade daquele fim de tarde que tanto me estava a ser particularmente agradável, com os TPC’s feitos sem grandes sobressaltos, criança a desenhar sossegada e, eu, a dormitar no sofá.

A minha resposta afirmativa de que nunca tinha "matado" nenhum animal foi muito bem recebida e ignorei o facto, não relevante para a questão, de já ter exterminado formigas, moscas e piolhos achando que a pergunta em questão, seria mais filosófica e definitivamente apenas relativa a animais de grande porte.
Por isso, consegui o meu objectivo de manter a tranquilidade do fim de tarde e a criança suspirou aliviada, exclamando-me a sorrir.
- UFA!!! Ainda bem que nunca mataste animais da realeza. - disse ela.
- Realeza? - espantei-me eu
- Sim, a realeza é muito, muito importante. Se a matas é muito perigoso. Os animais não se reproduzem e morrem todos.
- Natureza, queres tu dizer. - perguntei
- Sim, Natureza. Mas sabes, a natureza é realeza. Sabias?

Pois!
Eu não sabia mas não deixei de pensar que a natureza é uma espécie de realeza pela importância que tem e que esta associação afirmação da miúda podia ser aceite sem muitas interrogações ou explicações.
E, assim, resolvi continuar a dormitar no sofá, sem mais perguntas nem mais achegas sobre o assunto, deixando cair o assunto das formigas, moscas e piolhos, preservando a paz do fim do dia que é ouro e nem todos os dias se consegue.
E foi o que aconteceu até serem horas de ir fazer o jantar e deixar a ociosidade.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ESTÃO TODOS MORTOS

- Estão todos mortos. Quem os matou? - disse-me a olhar a embalagem dos camarões, do menu Dia da Mãe.
- Quem os matou como? - respondi eu a pensar nos troncos das árvores cortados e alinhados em cima de uma camião e a miúda a fazer-me a mesmo pergunta. Na altura, surgiram as preocupações ambientalistas, agora será que vai virar vegetariana pensei eu.
- Quem os matou todos? Tu, não vais pescar que eu sei muito bem. Sabes que assim não podem ter filhos nas suas barrigas invisíveis?
São oito da noite e já estou cansada de um dia cheio de actividades logo resolvo cortar a conversa.
- Olha, mas tu não vais comer camarões? Não estavas a dizer que querias? Então?
- Sim! - responde ela, sempre de argumento pronto - Vou comer porque estão todos mortos.
E continua.
- Achas que ia comer se estivessem vivos? Coitadinhos, já não vão ter filhos filhos das suas barrigas invisíveis.
Bem, deixo as preocupações ecológicas e centro-me neste dado novo "barrigas invisíveis". Nunca a tinha ouvido falar disto.
- Barrigas invisíveis? Que é isso?
Explicação pronta.
- Olha, os peixes estão com os filhos dentro da barriga mas não se vê. São muitos, muitos filhos. Sabias?
Nesta altura começo a pensar que o meu gosto por ovas está a ser profundamente questionado.
- Pois. Mas sabes se não os tivessem morto não se comiam. É assim, comemos o que matamos. Agora só queres comer sopa? Legumes?
E houve ali um minuto de silêncio constrangedor para ambas.
- Não, eu também gosto muito de plantas.