segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CRÓNICA DE NATAL

Gosto dos dias seguintes das épocas festivas. 
Do Natal, da Páscoa, dos aniversários. 
Gosto de olhar para a casa, ainda testemunhando o dia festivo do dia anterior, e relembrar a presença de cada um, e recordar os momentos mais divertidos, os risos, as histórias. 

Hoje, está a saber-me tão bem, este dia 26, cheio de sol, em que tudo dorme e eu, em paz, arrumo o que ficou destes dias de Natal, mergulhada na doçura do vivido, sentindo-me abençoada.

Este ano, a Eliana (filha de Wanta Na Cofa), a nossa pequena guineense em tratamento médico em Portugal, trouxe-nos um Natal diferente, com comida guineense e portuguesa, a pensar no gosto comum e na partilha.

Não houve bacalhau e os maracujás fizeram parte, pela primeira vez, da sobremesa.

A seguir ao jantar, a Eliana, tal qual um pequeno duende de Natal, foi voluntária,  para arrumar a cozinha, com uma dedicação tão genuína, que me fez acreditar, com mais força que acolher, o outro. desta forma, em família, é muito mais receber do que dar. 


E este ano, foi um Natal diferente pois, uma criança em casa, é sempre uma riqueza imensa, um olhar que nos leva de volta à magia da infância, um mundo de pequenos nadas. 


Um Natal, feliz e doloroso, por saber, a Eliana tão distante dos seus, que tanto a amam e com tantos obstáculos à comunicação, mesmo enviando um telemóvel oferta surpresa da Joana, Marisa e Catarina para a família da Eliana e entregue pessoalmente pelo Nuno. 


Assim, neste Natal de ontem, foi tempo de falar de Catió, da Guiné Bissau, da chuva e dos aviões que ligam lugares e trazem meninos para tratar doenças do "corazon" trazendo para perto o que está longe. 


E foi Natal, a falar do pai Wanta e da mãe N'Sumpte e, do irmão Jo, da irmã Maria, da vizinha Dina e da roupa azul do pai quando o vimos pelo computador, desde Bissau, em casa da Isabel. 

E foi tempo de testemunhar, como a Eliana, guarda as suas imensas saudades lá, bem fundo, e vive intensamente, o presente, com alegria. 


Uma lição de vida, uma forte memória de Natal, que partilho.

sábado, 3 de dezembro de 2016

CIRURGIA DA ELIANA AGENDADA PARA JANEIRO!!!!


'Hospital de Santa Cruz em Lisboa'



A chegar a Portugal no final de Julho deste ano, pela mão da AIDA (ONGD espanhola a actuar na Guiné Bissau com um programa de apoio à evacuação de crianças doentes para tratamento médico no exterior), sob a responsabilidade da Fundação João XXIII que, em território português garante, através de famíliss voluntárias a estadia e acompanhamento ao tratamento médico gratuito nos hospitais portugueses ao abrigo do Acordo de Cooperação no âmbito da saúde, Eliana foi acolhida pela nossa família e rede de amigos. Todas as despesas são asseguradas por nós enquanto família. Um esforço imenso, tanto quanto, a saúde muito frágil da Eliana não permite, horas e horas na escola e em casa todos trabalhamos.



Logo que chegou, a Eliana esteve internada 8 dias na Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Cruz, equilibrando e ajustando a medicação e desde aí, está controlada e usufrui feliz o que nós - Europa portuguesa - melhor temos para oferecer em saúde, educação e solidariedade. Sem a Farmácia Belém não nos seria possível comportar com a despesa da medicação que ultrapassa os 30O euros, por mês e sem o voluntariado da Mónica Abreu não era possível ter um apoio 8 horas por dia que me permite trabalhar descansada e dar estabilidade à Eliana que fica em casa se cansada, constipada ou com mau tempo. Este contributo da Mónics ronda os 700 euros mensais. E sem todos vocês, que trouxeram brinquedos e roupa, os custos seriam muito mais significativos. A boa vontade na área da saúde é imensa, as crianças doentes tocam o nosso coração de uma forma muito rápida mas muito há a fazer. São seis meses da Eliana longe de casa e dos pais, numa comunicação à distância em que através das amizades guineenses e preocupação da Ilda, da colaboração de Arnaldo em Cátio na Guiné Bissau foi possível estabelecer contacto com os pais da Eliana, via telefone (muito caro aqui) e via Facebook e Messenger ( muito caro lá). O pai da Eliana já tem conta no Facebook mesmo sem telemóvel compatível ( bsi usando o seu cartão em telefones cedidos) e a chegada de fotos via Messenger é motivo de grande felicidade na comunidade onde vivem. Agora, aguardamos a cirurgia da Eliana, que lhe devolverá a saúde e lhe possibilitará o regresso a quem ama profunda e fortemente. Como católica peço uma cadeia de oração pois o desafio é grande, como família, peço a todas as família o vosso pensamento positivo e solidariedade. Acredito que a fé, a energia positiva, a ternura e a proximidade são as forças que nos favorecem vencer as lutas que precisamos de fazer. Para mim, são vocês e este apoio que sinto, um dos pilares que me sustenta. Muito obrigada, a todos, pela proximidade calorosa. Vai tudo correr bem!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

RESIGNAÇÃO








A pequena Eliana tem uma dimensão de resignação que me surpreende desde o primeiro dia que chegou à nossa família.
Percebo que trabalhar, e não brincar, faz parte do seu dia a dia, da sua aceitação da vida, do seu estatuto.
Aos poucos e poucos, no entanto, os pedidos de brincar ganham força e os de "trabalhar" ficam esquecidos.
Que Bom!
Tem cinco anos, veio evacuada da Guiné Bissau, sem acompanhamento familiar, esteve sete dias internada no Hospital de Santa Cruz e chegou, a nossa casa, perto das sete da noite.
Sem choros, sem exigências.
Aqui, lavando a loiça.

- Esfrega loiça! -  como refere.
Na Guiné Bissau, rural e interior, trabalho.

 Em Portugal, rural e interior, trabalho?

QUIETUDE

A Eliana, ama ir ao parque, em frente de minha casa.

E desce as escadas, comigo, e fica à espera que chegue o Viktor que é o seu guia e interprete aqui em Portugal desde que saiu do hospital.

Hoje, trouxe um bebé, um boneco Nenuco, num carrinho de empurrar, mas eu percebo que a ideia é, muito mais minha, do que dela.

Centrada a descobrir o mundo real, o mundo que é a minha casa e todo o que se estenda lá fora, os brinquedos são pouco apelativos para a Eliana. Pega nos bonecos,  muito fugazmente, em brincadeiras simples, na sua maioria em pequenas sequências em que cuida dos bonecos, reproduz maioritariamente os cuidados hospitalares que foi submetida quando internada.

domingo, 7 de agosto de 2016

TEMPO DE MÙSICA


Desde que mostrei à Eliana, no meu telemóvel, quando ainda estava internada no hospital, na sua primeira semana em Portugal, o vídeo do Avó Cantigas, a cantar a canção "Doidas, doidas, andam as galinhas", que ela imediatamente chamou à canção de "Galinhas de Granja", e ouviu-a sempre, que lhe dei oportunidade, com visível satisfação.

A música é um contexto importante para rodear uma criança.

Logo, achei uma boa ideia, mostrar à Eliana que, a minha casa, também era um local onde podia ouvir as  "Galinhas de Granja". E ela amou ouvir e voltar a ouvir e, voltar a voltar, a ouvir.


Ter uma criança a ouvir, atentamente, uma canção infantil, é sempre um momento agradável e de paz, e ainda mais profundo pela adesão que a Eliana fez às "orelhas. auscultadores", algo que eu já usava com os meus filhos, porque há música e música e há relaxar e relaxar.

Eu, afinal percebi que não sou muito  atreita a ser "massacrada" com música infantil, a partir da vigésima repetição e, se a seguir a um período de desenhos animados na televisão com vozes irritantes, a minha tolerância é mesmo ZERO!
Em casa, a ouvir música.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

UNIDADE DE CUIDADOS INTENSIVOS

Olho, as fotografias do ano de 2016, no Facebook, testemunhos da viagem da Eliana e sorrio a relembrar as primeiras experiências de relação com a Eliana quando ela chegou a Portugal.

A miúda tem fibra e teve fibra desde o primeiro minuto em que chegou. Por vezes, eu sinto que me dizem que a miúda é assim, e assim, por causa da educação que lhe dou mas, a experiência que eu tenho, é que ela é assim e assim, porque é assim. 😀

Relembrando, a Eliana chegou a Portugal, numa condição de saúde muita debilitada e foi internada no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, no dia seguinte, dia 28 de Julho de 2016.

Dia 29 de Julho, fez 5 anos no Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Cruz, em Portugal.

A 3 de Agosto, o médico informou que ela ia fazer um cateterismo, que por volta das sete estaria despachada, a recuperação rápida costumava ser rápida e voltaria à enfermaria.

Nesse tempo, eu ainda não era completamente envolvida com a Eliana, como sou hoje, logo, ela foi fazer o cataterismo e eu vim para casa, tranquila, para voltar às sete ao hospital e ver se estaria tudo bem.

Mas aqui por casa , as coisas complicaram-se, tive um surpreendente pedido de entrevista via telefone de uma jornalista da Lusa, por causa de uma publicação que tinha colocado no Facebook, a pedir famílias de acolhimento para Coimbra, para crianças guineenses em tratamento médico, evacuadas da Guiné Bissau para Portugal, como a Eliana e atrasei-me.

Só fui para o hospital, quase pelas nove da noite, mergulhada em culpabilidade da criança já ter feito o cateterismo, acordado e ido para a enfermaria e eu, nem lá estar.
Assim, entrei no hall do hospital, a maldizer o meu feitio de atrasada.

- Venho ver a menina Eliana Na Cofa, está no Serviço de Cardiologia Pediátrica. Posso subir? Ela fez, hoje, um cateterismo.

- Um momento vou ver! - disse o recepcionista, que ali no Hospital de Santa Cruz, são de uma calma e amabilidade, surpreendentes.

E eu olhava para os elevadores, a subirem e a descerem,  a imaginar-me a entrar na enfermaria, no quarto andar, para saber da miúda, a pedir mil desculpas por não ter ido, mais cedo.
Acordei desta antecipação de vida, em modo de atraso, com o recepcionista, a dizer-me.

- Minha senhora, a menina Eliana, está nos Cuidados Intensivos, ainda não subiu.

Cuidados Intensivos?

EU GELEI!

- Mas, o que é isso de cuidados intensivos? Mas o que se teria passado ali no hospital enquanto es estava, em casa, no relax????
- Como era possível, estar a acontecer alguma coisa à miúda e eu nem estar ali?

Imediatamente, mil pensamentos voavam e embatiam, uns contra os outros. No meu pensamento, um mini caos, instantâneo estava instalado.

- Nos Cuidados Intensivos? Mas, eu, posso vê-la? - perguntei aflita, de chave no carro na mão, a sentir-me sem chão.

- Nos Cuidados Intensivos, as visitas acabam às nove mas a senhora vá, até lá, e pergunte. É ali! - e o senhor, apontava-me para uma, muito anónima, porta de madeira ,com batentes e janelas redondas tipo vigia de barco, que eu nunca tinha suposto que daria acesso a algo, tão dramático, como uma Unidade de Cuidados Intensivos.

Frequentemente, eu desenvolvo visões cor-de-rosa do mundo e para mim, aquele hospital, resumia-se a uma enfermaria, super simpática, cheia de enfermeiras, super simpáticas e atenciosas, crianças que até brincavam e viam televisão e aquele filme de Unidades de Cuidados Intensivos, por detrás de portas, de aspecto não hospitalar, trouxe-me inquietação. De certa forma, mudava radicalmente a minha visão, cor-de-rosa, de hospital.

Respirei fundo e lá fui, porque sou de natureza corajosa, à procura da Unidade dos Cuidados Intensivos, e encontrei um botão de chamada, já numas portas brancas de aspecto hospitalar, toquei e aguardei, conforme indicação escrita, em aviso, colocado na porta, tudo conforme esperamos em contexto hospitalar. A realidade, começava a doer.

- A Eliana Na Cofa? Vinha saber dela! - perguntei a uma pessoa que me veio abrir a porta vestida, como eu esperava encontrar, num serviço de Cuidados Intensivos.

- A Eliana? Ainda não acordou! A esta hora já não há visitas. - disse-me séria - Está tudo bem.

 - Mas, não posso vê-la? - insisti eu - Só quero vê-la e vou embora. - e sorri, com o melhor sorriso que encontrei, no meio da ansiedade crescente.

Nestas alturas, em que quero algo, esqueço a culpabilidade e retomo, o meu modo de funcionamento esperançoso.

A senhora sorriu, condescendente, e disse-me que sim, desde que fosse só um minuto e foi, a primeira vez,  que entrei numa Unidade de Cuidados Intensivos com aquele peso. Já tinha ido ver o Alfa, aos Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Marta, mas o miúdo estava acordado e tudo me tinha parecido mais semelhante a uma enfermaria ou então já me tinha esquecido do stress com o Alfa porque correu tudo super bem.

Tive ali o compasso de vestir a bata, atravessar o corredor de acesso e entrar e fiquei esmagada por todo o aparato tecnológico. Não lido com hospitais, não me lembro de ter ninguém doente, esqueci a Justina, o Ussumane, o Samba e o Betcho que estiveram em Coimbra e que visitei esporadicamente, lembrei-me apenas do meu colega Carlos mas que nunca esteve ligado a nenhuma máquina, logo, comecei a procurar a miúda, em modo de tensão.

O aparato tecnológico de uma Unidade de Cuidados Intensivos

A miúda dormia, estava ligada a uma torre de distribuidora de medicamentos, e, pareceu-me transparente mas tranquila.

Toda a sala, respirava tranquilidade, com uma enfermeira à cabeceira de cada cama com, talvez cinco camas na sala.

- Upss, que isto é sério! - pensei eu que, como já tive ocasião de referir,  sempre penso uma visão cor-de-rosa do mundo.

Emocionei-me.

Não estava à espera que, a miúda,  fosse parar a uma sala de Cuidados Intensivos, pensei que um cateterismo era tipo banal e acho que estava a começar a consciencializar que, tinha dito sim, ao acolhimento de uma criança, verdadeiramente doente.

- Vou ficar lá fora até ela acordar. Pode ser? - disse eu, à enfermeira, com o ar mais voluntarioso que tinha no meu cardápio de vozes "é melhor não me contrariares".

 - Quando ela acordar, avisa-me, pode ser?- conclui.

- A senhora, não vai poder voltar. Os pais só podem ficar até às nove da noite. É melhor ir para casa e, amanhã, já vai poder vê-la, de novo.

Olhei, a senhora enfermeira, de frente e voltei a afirmar.
- Vou ficar! Estou lá fora, na entrada.

E lá fui, para a entrada.
Devo ter falado à Gláucia, a contar o que se estava a passar e estava eu, a lutar contra o cabecear de sono, quando me apareceu uma senhora, ao meu lado. Seria a Sofia? Mais tarde, conheci a Sofia,  no hospital. É auxiliar e está nos Cuidados Intensivos.

- Olá! Vimos perguntar se a senhora pode entrar para vir ter com a menina.

- Ir  ter com a menina? - passou-me logo todo o sono e fiquei toda animada.
- Quer dizer que a miúda estava acordada e viva. -pensei
- Sim, claro que sim! Mas que se passa?- perguntei, já a levantar-me
- A menina acordou, mas não quer beber nada. Recusa tudo.Talvez seja melhor, a senhora, vir falar com ela. - explicava-me, a funcionária,  enquanto, eu, já vestia a bata, para entrar nos Cuidados Intensivos.

- Falar com ela? - pensava eu - Como havia eu de falar com ela se eu só sabia falar português e ela só sabia falar balanta e crioulo?

Nesta altura, no entanto,  não me pareceu nada relevante abordar esta subtileza linguística porque eu queria, mesmo, era ver a miúda.

E vi.

Deitada na cama, com um ar francamente debilitado, Eliana, olhou para mim, sem sorrir. Dei-lhe a mão e falei-me baixinho.

- Como bu stá? - e era mesmo a única frase que eu sabia dizer em crioulo da Guiné Bissau - Stá dreta?

A miúda, deu-me a mão e olhou para mim, respirava de boca aberta e achei, mesmo, que deveria ter sede.

A enfermeira, tinha o copo de água na mão que ela deveria tomar e deu-me para eu lhe dar mas, quando eu aproximava o copo e ela gemia e virava a cabeça.

- Água - repetia eu baixinho - Tens de beber água, amor!

Mas nada, a miúda virava a cabeça e nada.

A enfermeira tinha ainda bolachas Maria e iogurte como opções para ela mas a nenhuma destas opções, ela parecia dar, qualquer importância. Recusava tudo.

- A senhora, tem de lhe explicar que ela tem de beber a água e comer qualquer coisa para poder sair daqui. - falava-me a enfermeira, com calma - Acha que a consegue fazer perceber? Ela costuma ser assim?

- Ela costuma ser assim? Sei lá eu, como ela costuma ser, se a miúda acabou de aterrar, em Lisboa, vinda do outro lado do mundo? Eu só sabia uma coisa que era que, ela não gostava de iogurtes porque os tinha recusado, nos dias anteriores,  nos lanches do internamento.
O resto não sabia mais nada. Sentia-me impotente.

E olhava para a miúda e pensava no que ia fazer.

- Sofi! Vou ligar à Sofi! - e a ideia pareceu-me extraordinária.

Já tinha usado, essa estratégia,  com o miúdo Alfa, também guineense, quando lhe queria explicar qualquer coisa, mais séria ou mais sofisticada, ligava à Fanta ou à Sofi, ambas mulheres guineenses, a viver, em Portugal, desde há muito tempo e elas falavam, em crioulo ou fula, com o miúdo e eu ficava sossegada que tinha dito ao miúdo o que o miúdo tinha de ouvir. O miúdo era fula.

- Sofia, podes falar com a Eliana ao telefone e explicar-lhe que para ela ficar melhor e sair de onde está aqui nos Cuidados intensivos e voltar à enfermaria tem de beber e comer qualquer coisa?  - perguntei, eu ,à Sofi que, graças a Deus, me  atendeu o telefone, logo, na primeira tentativa.

- Luísa, ela está nos Cuidados Intensivos? Passa o telefone que eu falo com ela. - Sofi, também veio para Portugal, com o filho, com uma cardiopatia, ao abrigo do mesmo Acordo de Saúde que trouxe a Eliana, logo sabia do que eu estava a falar. Essa familiaridade da Sofi com o tema, sossegou-me.

Coloquei o telefone, no ouvido da Eliana. A Eliana, ouvia atentamente, o que a Sofi lhe falava ao telefone, penso que ainda acenou com a cabeça, uma ou duas vezes, mas falar, nada.

Voltei a falar ao telefone com a Sofi depois de voltar a insistir com a Eliana para que bebesse água ou comesse uma bolacha. Nada. Colocava a mão, em frente da boca e voltava a cara para o lado.
Recusa total. Mas sede tinha, quase de certeza.

Liguei de novo à Sofi, que, desta vez, do outro lado do telefone, ria divertida. Fiquei perplexa. Para mim, a situação era dramática, de falha total de comunicação com a criança, numa situação de fragilidade máxima..

- Luísa!- falou a Sofi - Estão aí mais miúdos nos Cuidados Intensivos, não estão? - eu disse que sim, em cada lado da ampla sala dos Cuidados Intensivos, havia uma cama e uma criança a lutar pela vida. - Olha Luísa, a Eliana está a ver os outros miúdos doentes e a pensar que foram todos envenenados, percebes? Por isso,  estão tão mal.

- Envenenados? - já não me lembrava de ter ouvido associar, envenenamentos, a situações de doença.

A Sofi, continuava divertida.
- Ela é pequenita. Vais ver que ela  julga que os miúdos todos foram envenenados com comida. O que tu tens de fazer, antes de lhe dar água, é tu beberes a água, percebes? Depois com a bolacha, tu pões na tua boca, mastigas e depois tiras e dá-lhe. Vais ver que ela, assim, come.

Achei surreal mas fez-me sentido. A miúda, deitada ,olhava para mim e eu, de copo de água na mão, pronta para experimentar.

Desliguei o telefone e experimentei.

Peguei no copo, bebi um golo de água  pela palhinha, mesmo em frente da Eliana, para ela ver bem o que eu fazia e, depois,  dei-lhe, a mesma palhinha ,para ela beber.
😀

Foi mágico. A miúda aceitou a palhinha e bebeu.

Sorrimos ambas. Passei à bolacha Maria. Peguei na bolacha, parti um pedaço, meti na minha boca e dei-lhe.
A Eliana não gosta de bolachas. Sempre as tinha recusado, lá em cima, no internamento mas aceitou. Comeu, engoliu e disse-me.
- Pon! - ou seja pão.
Eu achei fantástico, estávamos a comunicar  mas o objectivo era que comesse a bolacha.
- Olha querida, tem de ser bolacha, aqui não há pão. Só bolacha.
- Pon! -  repetiu-me, visivelmente mais animada.
- Não tenho pão.- sublinhei eu.
- Pon! - e fechou a boca, a reforçar a negação.

A enfermeira olhava para nós, ali próxima e eu perguntei-lhe
- Pode ser pão, em vez de bolacha? -  e esperei a resposta.
- Poder pode! - respondeu a enfermeira - mas nós não temos pão, aqui em baixo.
- Mas, eu posso ir comprar? - sou uma mulher prática e achei, tipo óbvio, que se não havia pão, eu ia comprar.
- A esta hora? - surpreendeu-se a enfermeira, consultando o seu relógio de enfermeira e confirmando que já passava das dez e meia, da noite.

 - Minha senhora, a esta hora, aqui,  já está tudo fechado.

Sou de natureza teimosa e como já disse e repeti e vou escrever outra vez vejo sempre o mundo numa visão cor-de-rosa,  pelo que respondi.
- Não faz mal, eu vou tentar. Posso sair, comprar e voltar? - e eu, já era toda sorrisos, a pensar no sucesso desta iniciativa.
- Pode! - anuiu a enfermeira.
E foi assim, que poucos dias depois da Eliana chegar a Portugal, lá estava eu, na minha primeira aventura, surreal, a procurar pão, quase às onze da noite, a pé, ali, em redor do Hospital de Santa Cruz. Mal sabia eu que, este tipo de aventuras, se iriam repetir, vez atrás de vez, até fazerem parte do nosso quotidiano e deixarem de ser, algo surreal.

Saí do hospital e tudo fechado. Logo em frente, os cafés, todos fechados, ao longe as luzes do MacDonalds, e já estava a pensar que era melhor ir ao parque de estacionamento buscar o carro, mas a descer a rua do hospital,  quando vi as luzinhas do senhor João.

Agora, dois anos depois deste episódio, sei que o café que tinha as luzes acesas é o do senhor João. Uma simpatia. Fomos lá muitas vezes, eu e a Eliana, eu e a Rita, colega da Eliana mais a mãe Guida, eu e as outras mães do hospital, a Eliana e a Margarida, que tinha o irmãozinho desde recém-nascido, internado no hospital, de quem somos amigas até hoje. Olá Inês, mãe da Margarida! Olá Guida!

De facto, ao aproximar-me, vi que as luzes eram efetivamente de um restaurante-mercearia, que já estava de porta fechada mas que eu bati e o senhor que acabava de limpar o chão da loja, abriu a porta.

- Boa noite, desculpe. Olhe, eu venho, ali do Hospital de Santa Cruz, à procura de pão. Tenho lá uma miúda internada, nos Cuidados Intensivos que devia comer bolacha Maria mas quer pão. O senhor tem um pão, que me dispense?

O senhor olhou para mim, levou  uns segundos a processar o que eu lhe estava a dizer e respondeu-me, a poisar a esfregona encostada a uma parede.

- Claro que sim!

E eu respirei aliviada. A aventura, tinha sido mais fácil, do que eu julgara.

Embrulhado num papel, momentos depois, o senhor, dava-me o pão que eu precisava.

- Quanto é? - disse eu, encantada.
- Minha senhora, não é nada! - disse o senhor, um rapaz novinho, a pegar, novamente ,na esfergona.
E despediu-se, desejando as melhoras da menina.

Voltei ao hospital feliz, com o coração a bater acelerado pela generosidade daquele desconhecido e claro, a Eliana comeu o pão, perante o ar divertido e satisfeito das enfermeiras.

É claro, que foi preciso que eu colocasse o pão, na minha boca, antes de lhe dar, pedaço a pedaço, mas comeu.

Ainda, ali fiquei,  um bocadinho, até ela adormecer, com a mão dela, na minha mão e acho que este foi um momento decisivo nas nossas vidas que marcou o início desta imensa aventura que é ter,  a Eliana, na minha vida.

Mão na mão na UCI
Quando saí do hospital, ainda telefonei à Sofi, a contar o sucedido e rimos as duas com o comportamento da miúda.
- Essa miúda é muito esperta! - disse a Sofi.

E estava cheia de razão.
























sábado, 30 de julho de 2016

NÂO, NÃO, NÂO QUERO COMER SOPA!

Não, não, não quero sopa!
Comentários desta publicação no Facebook 

Sofia Morais Duarte Silva Nao insistam na sopa.... eles lá não têm disso....

Luisa Ramos de Carvalho Sofia, foi só uma tentativa. :))) Quando posso, escolho o que ela mais gosta...mas está no hospital...a escolha é limitada. Mas ela come bem, Com gosto! E agora, também, alimenta as bonecas.

 Luisa Ramos de Carvalho Sofia, sopa não é com ela.  Legumes, também não.  E sim, quando chegou de viagem comeu um mega prato de massa e carne picada. A comida do hospital é o que é e ela gosta de comer. É uma sobrevivente resistente. :))) eu insisti com a sopa porque é o meu papel mas foi inútil

Sofia Morais Duarte Silva Arroz, arroz ...e arroz
Peixinho mas gostam mesmo é de carne picadinha...
Amendoins torrados adoram e ainda fruta mesmo. (Os potes de fruta nao comiam)

Gostam muito de iogurte mas dos bons daqueles gordos gregos!!!!!


Marcia Cardoso Lindinha 

Brincar com os lápis no hospital

quarta-feira, 27 de julho de 2016

ESPERANDO ELIANA

Esperando Eliana!!!

PRIMEIRA NOITE EM PORTUGAL


A Eliana chegou da Guiné Bissau e passou, a primeira noite, em Portugal em casa da "tia" Gláucia. A Gláucia, minha amiga, já tinha partilhado comigo a guarda do Alfa quando ele esteve em Portugal em minha casa e agora, estava disponível para também partilhar a guarda da Eliana.
Como a Gláucia tem o filho Miguel, de seis anos, achámos que a Eliana ficar numa casa com outra criança, nesta primeira noite, era mais fácil para ela.

Assim, do aeroporto onde fomos buscar a Eliana, seguimos para casa da Gláucia, eu estive presente no jantar e como a Eliana nos pareceu que queria ficar ali, ali ficou.

Combinámos, no dia seguinte, nos encontrar no Hospital de Santa Cruz, onde também iria o Igor, onde os quatro menores que chegavam da Guiné Bissau, teriam a sua primeira consulta médica.

domingo, 26 de junho de 2016

AEROPORTO DE LISBOA


Eliana, ao colo do Igor, a chegar ao aeroporto de Lisboa, Portugal.
A curiosidade pelo mundo à sua volta, Eliana a olhar o aeroporto de Lisboa, desde o colo do Igor

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O PEDIDO


- Luísa, consegues arranjar uma família para acolher esta criança? Precisa de ser evacuada, com urgência; da Guiné Bissau e já tem possibilidade de consulta no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, Portugal. Tem quatro anos.

- Como não responder a um pedido humanitariamente maior?
Como poderei continuar, na minha vidinha de todos os dias, sabendo que, para trás, ficou a morte de uma criança?

- O que se alteraria na minha vida, se existisse mais uma criança, morta, na Guiné Bissau, que tomava conhecimento que existia num momento e, em outro, relativamente próximo, me informavam que  deixava de viver?

- Morrerá por minha culpa? Sou responsável, por essa morte?

- Não, definitivamente, não serei responsável por essa morte,  mas também não lhe posso ser indiferente.

NÃO LHE POSSO SER INDIFERENTE.

Tenho valores e quero que a minha vida seja um exercício de ética.

- E se fosse minha filha? - penso eu. - E se fosse minha filha?

Sinto, em mim, todo o amor que me liga aos meus filhos e avalio a sua dimensão.

O AMOR QUE ME LIGA AOS MEUS FILHOS É IMENSO.

E penso nos pais desta criança que olho, na fotografia.
E penso no amor que estes pais possuem por esta sua filha.
E penso, nesse mesmo amor que tenho pelos meus filhos e sinto a dor que podem estar a sentir.

Sinto a dor destes pais e volto a olhar para a fotografia da criança que precisa de ser evacuada da Guiné Bissau, com urgência, e reconheço os escritórios da AIDA, em Bissau.
Já lá estive, já vi a dura batalha que fazem pelas crianças e pelo encaminhamento das crianças doentes.

Procuro encontrar uma família que possa acolher a Eliana.

Ligo a todos os meus contactos. Não me sinto capaz de acolher uma criança tão pequenina.
Não me acho maternal, suficiente, para acolher uma criança pequenina desenvolvendo todos os cuidados que implica, pela sua dependência,

A viver há muitos anos sozinha, com filhos homens, eu amo a minha independência e não estou disposta a abdicar dela e mais, penso que nem conseguiria cuidar de uma criança, tão pequena.

Mas nenhum dos meus contactos, nem os contactos dos meus contactos, aceitam tal desafio.

Estamos em Julho, aproximam-se as férias e oiço as mais variadas, sensatas e responsáveis razões pelas quais, quem eu contacto, me enuncia para justificar a sua indisponibilidade para receber uma criança doente, tão pequena, por mais que o tema, sensibilize.
Eu subscrevo todas.

E os dias passam e começo a perceber que não consigo ninguém.

E tomo a decisão de receber esta criança.

Telefono à Gláucia, minha amiga, que já recebeu o Alfa, em conjunto comigo, em 2015, a perguntar se me garante apoio se eu acolher esta menina e a resposta é imediata que sim.

Tenho retaguarda.


Avanço.