Dias de verão num hotel em Santarém
Foi aqui, neste hotel, nesta piscina das crianças, que a Eliana se aproximou de duas meninas, mais ou menos da sua idade, procurando brincar, em conjunto. Mas a reacção de uma das meninas, talvez de uns seis anos como ela, foi brutal.
- Não brincamos com pretas! - gritou a menina, puxando a amiga para o lado e afastando-se da Eliana que, de lágrimas nos olhos, no minuto seguinte, corria para os meus braços.
- Que tens? - perguntei eu, como se não tivesse ouvido - O que aconteceu?
Mas não obtinha resposta. Enrolada em mim, a Eliana, escondia a cara no meu colo, decidida a esconder-se do mundo. Chorava! Falar, nem pensar!
- Ouve! - disse eu, com ternura máxima - Eu ouvi o que se passou. Não precisas de me contar. Eu sei tudo, ok?
O corpo escondido, continuava preso em mim, mas eu, sentia, que a tensão corporal diminuía.
- Eliana, vamos lá falar com as meninas. Elas não te conhecem. Precisamos de falar com elas. É preciso falar, a falar é que resolvemos as coisas, não é?
Entretanto, eu olhava para as meninas que também me olhavam de longe, e vi, que a que dito a frase à Eliana, se tinha afastado para junto dos pais.
- Olha, Eliana, a menina foi ter com os pais e eu vou ter com os pais dela e falar com eles - continuei eu, já com ela a tirar a cabeça do meu colo e a tentar ver o que se passava - Vamos lá as duas!
- Não! - gemeu, em tom de súplica.
- Tem de ser amor, se não gostas que te chamem preta ou que não brinquem contigo, temos de conversar com as pessoas. Anda, vamos! Eu levo-te ao colo!
A ideia do colo, deve-lhe ter parecido bem e o meu colo, suficientemente seguro para voltar ao mundo, pelo que me deixou, levantar e ajeitá-la, na minha anca.
Assim, de Eliana ao colo, dirigi-me ao casal e à filha, que estavam nas espreguiçadeiras junto da piscina. O pai apanhava sol e a mãe lia uma revista. Quando me aproximei da família, eu disse.
- Olá! Sou Luísa, a vossa filha acabou de dizer aqui, à Eliana, que não brincava com pretas mas, estava enganada, não estava? - e fiz o meu melhor sorriso, concluindo - Era isso que eu estava a explicar à Eliana.
Ao ouvir isto, a Eliana trepou pelo meu colo, enviou a cabeça no meu ombro e voltou a ficar cheia de tensão corporal. Os pais, sairam da atitude relaxada de férias e sentaram-se, no mesmo minuto em que me ouviam e ficaram com ar de atenção total, a olhar para mim.
- Magui, tu disseste, isso, a esta menina? - disse a mãe, olhando a filha e, dirigindo-se a mim, continuou - Peço imensa desculpa, nem sei como é que, a minha filha, disse isso, ela, até, está numa creche onde, até, tem meninos de cor, não é filha? - e interpelava a filha para lhe responder.
- Atão, tu não tens nada contra brincar com esta menina, não é filha? Mas porque é que tu disseste isso, filha? - repetia a mãe.
A miúda, enviava a cabeça nos ombros e olhava para o chão e a Eliana tirava a cabeça do meu ombro e olhava a miúda com curiosidade.
O pai, entretanto, entrava também, na conversa, reforçando.
- Filha, os pais nunca te disseram para não brincares com meninos de cor. Tu tens de ser amiga de toda a gente, não é filha?
A miúda começou a acenar com a cabeça que sim, parecia visivelmente, incomodada e eu avaliei que era altura de um final feliz.
- Pois é, às vezes nos falamos coisas que não pensamos, não é? E a Eliana, de facto, tem a cor mais diferente de todas as cores das meninas desta piscina, mas o engraçado é mesmo brincarem, todos, uns com os outros não é? - conclui eu, tipo resumo de aula.
- É, é ! - disse a mãe - Magui vais brincar com a menina! Olhe, acha que lhe posso oferecer um gelado? Nós, íamos, mesmo agora, comer um gelado.
A Eliana não gosta muito de gelados, prefere, batatas fritas, mas eu achei que não era relevante, naquele momento, pelo que disse que sim e a família começou a movimentar-se para se levantar e se dirigir ao bar da piscina.
Penso que a senhora, ainda acrescentou, que não tinha ensinado miúda a dizer aquelas coisas e que sempre a tinham visto a brincar com todas as crianças, até com os meninos de cor, que haviam lá na creche e embora eu não tenha gostado muito daquela referência, continuada aos meninos lá da creche, achei que tudo estava a correr muito bem e que valia a pena ter tentado dar este testemunho à Eliana, que a conversar é que a gente se entende.
Porque, a verdade, é que quando me levantei para me dirigir aos senhores, com a Eliana ao colo, não estava muito segura que as coisas fossem correr bem, mas não podia deixar de tentar, certo?
Na verdade, a miúda tinha gritado de uma forma, bem alta que não queria brincas com pretas, pelo que me parecia impossível que os pais não tivessem ouvido. Pelo menos, os senhores que estavam ao meu lado, uma mãe, um avô e duas miúdas mais velhas, também ouviram e, mais tarde, comentaram comigo sobre o que devemos fazer, nestas situações, e sobre a importância de se falar sobre estas "coisas de miúdos", tão normais.
A Magui, provavelmente não se estava a sentir confortável com o que tinha feito, porque aceitou de bom grado ir comer o gelado com os pais e a Eliana e ofereceu-se, logo, para dar a mão à Eliana.
Estivemos mais dois dias, naquele hotel e o resto do tempo, as duas miúdas, brincaram sempre juntas, sem problemas. As duas com mais ou menos seis anos, as duas a fazer seis anos.
Eu ouço muitas vezes que os miúdos, são assim, cruéis uns com os outros, que faz parte da infância, referem-me, isso, imensas vezes, quando falo em atitudes para com a Eliana, negativas, relativamente à cor.
Se calhar, eu dou demasiado valor, a este tipo de interacções, porque já estou a ver todo o filme da discriminação, que vem atrás destas afirmações e se lhe chamassem, gorda, ou burra ou palerma, não ligava tanto.
Pois, não sei! O tema é complexo.
É um caminho, que estou a fazer e, naquele dia, pensei se a minha reacção seria a mesma, se eu, também fosse como a Eliana e se fosse estrangeira e se eu já tivesse ouvido e/ou sentido, toda a minha vida, histórias de discriminação com base na cor de pele se teria reagido dessa forma.
Ufffa! Ainda bem que sou novata no tema. Posso fazer, mesmo, o que me apetece com a pessoa que sou, com a idade que tenho e a nacionalidade que tenho, portuguesa.
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Muito bem, Luísa!
ResponderEliminarConstato que seguiste a ideia do blog!
Gostei de ler, como sempre, aliás
Margarida, bom dia! Pois foi! Ao fim de dois anos consegui fazer o que poderia ter feito logo em junho de 2016 mas, a maravilhosa tecnologia associada aos blogues permite fazer publicações data-free e, por isso, andar para trás.
EliminarEstou feliz e como já me escreveram, é um legado que deixarei para a Eliana.
Mil obrigadas pelo carinho do comentário!
Uma história que infelizmente se repete muitas vezes...
ResponderEliminarNeste caso no entanto acabou da melhor maneira graças à tua intervenção e ao bom senso...
Beijos às duas!!!!
Olá, Nuno!
EliminarCada dia a miúda lida melhor com estas situações ou cada dia tem uma leitura que se transforma destas situações. E eu, também. É uma aprendizagem mútua, neste caso, minha, da Eliana, da miúda e dos pais.
Como sempre :muito bom!
ResponderEliminarMarta Rosa ( comentário publicado no Facebook) Tt coisa aí q teríamos para desconstruir... O de cor por exemplo... Sempre q oiço essa expressão acabo por dizer qual cor? A minha a tua? Porque cor todos temos... É medo de dizer castanha, preta, branca... Até nesse medo há preconceito. Daquele que está c as melhores intenções mas sim, há. E temos dr falar sobre tudo isto como fez a Luísa, no momento certo, sem medos... Boa!
ResponderEliminarMarta, vou colocar o comentário no blogue. Pode ser? também não gosto da expressão "meninos de cor" mesmo que dita com boa intenção. Quando a Eliana chora porque lhe chamam preta porque é castanha digo-lhe que tudo são palavras, não vale a pena stressar. Beijo e obrigada pelas palavras.
EliminarMarta Rosa (publicado no Facebook) Luisa Ramos de Carvalho podes sim. É importante dizer vezes sem conta e descontruir esta mentalidade cheia de boas intenções mas tóxica. O de cor é um caminho mas não é correto. Temos de falar da palete de cores sim mas mais ainda temos qie dizer q n nos separamos por cores. Podemos dizer tt outras coisas... É um tema muito amplo e necessário. Força Luisa e obrigada
EliminarAnabela Passarinho ( comentário publicado no Facebook) Eu nasci em 1948, cresci e estudei em Luanda, vim para a faculdade em Lisboa. Na minha primeira e segunda classe tinha uma amiguinha, a Clarisse , de quem gostava muito. Perdi - lhe o rasto, mas nunca a esqueci. Há seis anos, através do Facebook, alguém (?) me questiona, "tu és a Anabela Passarinho, que andava no colégio Rainha Santa Isabel?". Respondi que Sim��...É perguntei és a Clarisse que tinha um penteado com canudos. A resposta foi sim��. Eu vivo em Lisboa ela em Angola, trocamos contactos e combinamos um encontro em minha casa, quando a Clarisse viesse a Portugal ����. Conclusão, quando nos encontramos, ao fim de 60 anos, verifico que ela era mestiça ��!!! .. Para mim ela tinha sido e é a Clarisse dos canudos. Era a amiga com quem brincava às bonecas e cujos viviam numa casa perto da minha. Já somos as duas avós��������
ResponderEliminarNadia Can ( comentário no Facebook) Uau! Grande exemplo! Mas que dupla formidável. Confrontaram uma situação desagradável e à partida imperdoável nos olhos, com uma atitude de desafio do errado, mas dando também oportunidade e espaço para o perdão. Essa família nunca mais será a mesma e nós que seguimos deste lado também não...
ResponderEliminarLuisa Ramos de Carvalho (publicado no Facebook) Obrigada Nadia Can! Também posso colocar o comentário no Blogue? Mil obrigadas pelo testemunho. Conseguir esta gestão da adversidade é o que tento. Algumas vezes consigo, outras vezes nem por isso ...
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