domingo, 30 de setembro de 2018

RIMAS

- Sabes fazer rimas?
- Sei!
- Sabes é assim, Corte Inglês rima com Continente.
😂
Eu amo explicar.
- Eliana, rimas são palavras assim Continente e pente. Inglês ... rima com ...

- Não, não .... não, é assim ... eu sei ... é João e Balão. - diz a miúda.
- Exactamente, Balão, acaba em ão e João acaba em ão. Rimam.

A miúda ficou pensativa.

- Já sei! "Ávore" e "Áve"!

Eu, ri-me!

- Não é "Ávore",  é árvore. E árvore e ave, não rimam. Apenas começam como o mesmo som.

A conversa estava a tornar-se complexa.

- E rima? Rima, rima com quê? - pergunta.

- Rima ? - disse eu, enquanto fazia pisca para mudar de direcção para virar para casa. Tinha ido buscar a Eliana, a uma festa de anos no Pavilhão do Conhecimento e esta conversa desenrolava-se no carro.

- Rima? - pensei, pensei e não consegui lembrar-me de nenhuma palavra, ainda que agora que escrevo me esteja a lembrar de "lima". Rima, rima com lima mas na altura não me lembrei.

- Pois! - disse a miúda - "Cama" rima com "lama" é melhor jogarmos ao jogo dos carros.

😆




terça-feira, 25 de setembro de 2018

FILHA DE DEUS



- Eu sou filha de Deus? - pergunta-me.
- Sim. Tu és filha de Deus.- respondi
- Ele "dutou-me"?
Olho para ela e tento perceber o que diz.
- Adoptou-te? Se te adoptou?
- Sim! Ele fez isso?
Fiquei a pensar na resposta. Que resposta lhe ia dar. Sempre penso na vontade individual quando penso em Deus, a vontade de O aceitar, a vontade de aceitar que somos filhos.
Eu a pensar, em compasso de espera e a Eliana já a fazer perguntas

- Mas isso foi desde que eu nasci???

Olhei para ela e sorri.
- Foi desde que foste baptizada pelos teus pais, na Guiné Bissau.
- Ah! - disse a miúda e esta resposta, pareceu-me, que lhe fez sentido.

Nota: A frequentar uma escola católica, baptizada pelos pais, na Guiné Bissau, eu, em Portugal ,dou  continuidade à educação católica. A Eliana, por sua vez, frequenta, com muito gosto, as aulas de Religião Moral e Religiosa Católica

Livro escolhido pela Escola Ave Maria 
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OS JOVENS E A ELIANA


 Algo que, sempre, me surpreende é o interesse que os jovens (por exemplo, entre os 16 aos 26 anos) demonstram pela Eliana e a sua história. É principamente a história de vida da miúda que os impressionam, o facto de os pais não a acompanharem. Penso que não se imaginam a viajar para outro continente, doentes, sem saber a língua do local para onde viajam, sem conhecer ninguém e esse conjunto de adversidades que a Eliana ultrapassou com sucesso, os admira e entusiasma.

E sempre me surpreende, também, a atenção que lhe dão, a forma como se interessam por o que ela diz, os desenhos que faz, as perguntas que coloca.

Nestes momentos, quando olho e/ou fotografo estes momentos tão bonitos, emociono-me.

Penso que compreendem, certo?

Nota: Fica o testemunho de um desses momentos, na zona de Santarém, num restaurante cheio de clientes e de barulho, onde a Eliana e o Zé, pareciam protegidos por uma imensa bolha de tranquilidade.
Zé e Eliana, momentos de cumplicidade.

Eliana, a escrever uma carta para o Zé

Desenhar, desenhar e desenhar. Uma actividade constante da pequena Eliana.













segunda-feira, 24 de setembro de 2018

VIKTOR OU COMO UM MENINO FOI TÃO IMPORTANTE NA INTEGRAÇÃO DA ELIANA

Viktor, veio da Ucrânia, a 17 de Julho de 2013. Tinha 8 anos.

A mãe já tinha vindo para Portugal, a 23 de Fevereiro desse ano,  procurando uma vida melhor para si e para a sua família. 

Conheci o Viktor, no gabinete de apoio às situações de indisciplina da escola que frequentava. Tinha uma suspensão, por mau comportamento, e não a estava a aceitar, como justa. Uma suspensão que se seguia a um sem número de saídas de sala de aula, por indisciplina grave, desrespeito na relação com professores e colegas, recusa em fazer o trabalho escolar.

Por razões, que a razão desconhece, apaixonei-me pelo Viktor, desde o momento que o vi. Tocou-me a sua fragilidade, a vítima que o agressor escondia, o ar perdido, o mudo pedido de ajuda que me transmitia.

E pela mãe, que nesse dia foi chamada à escola, para tomar conhecimento e assinar a suspensão do filho, que partilhava o mesmo ar atordoado, o mesmo pedido de ajuda, o mesmo desespero mudo.

Apaixonar-me, neste contexto profissional, significa sentir uma empatia especial, pelo ser humano que encontro, uma curiosidade especial pela sua história de vida e pelos acontecimentos que o colocaram, naquele momento, numa situação tão adversa ou desprotegida ou de zanga com o mundo. E o empenho que sinto em me envolver, de conhecer mais, de possibilitar a mudança que coloque "um mundo de pernas para o ar", no seu lugar.

Amo a zona humana onde desenvolvo o meu trabalho profissional, as escolas, os alunos, os professores, os pais, familiares e responsáveis. A escola é um cruzar imenso de histórias de vida, de anseios e sonhos, de vitórias e falhanços, de luta. É a minha praia.

E o Viktor, também se apaixonou por mim, ligou-se àquela mulher que percebeu que não era uma professora, que não conhecia mas que tinha poder de decisão e, principalmente, que lhe pareceu que estava do seu lado, a dar-lhe uma nova oportunidade.

O ano passado descreveu a sua relação comigo a uma psicanalista que o ia começar a seguir como "Somos amigos" e definiu muito bem.

Trouxe o Vitkor para a minha vida, para lá dos muros da escola, como se fosse um sobrinho mais. 

Temos imensa empatia o que facilita a mudança no Viktor e o apoio da mãe foi fundamental. Também somos amigas. Foi um processo mais demorado, com muitos avanços e recuos mas de professora Luísa, passei a amiga.

Depois conheci a Viktoria, a irmã pequena, e o pai, também Viktor. Como todos, as relações foram fáceis e mutuamente desejadas. 

E, por isso,



quando a Eliana chegou, um tinha toda uma família, imigrante, a saber o que era viver fora do seu país para me apoiar com a Eliana.

Essa ponte necessária entre o passado e o presente, foi o Viktor que o fez, o meu agradecimento é imenso.

Fica aqui o testemunho






sábado, 8 de setembro de 2018

A ESCOLA QUE VEIO ATÉ NÓS

Com  perspectiva de a Eliana, a menina evacuada para Portugal para tratamento médico em 2016,  continuar em Portugal, pela necessidade de acompanhamento ambulatório e perspectiva de nova cirurgia em 2019, foi necessário pensar num ano lectivo, agora, com possibilidade de frequentar, diariamente, uma escola.
A Eliana, começou o 1.º Ciclo de Ensino Básico, no ensino doméstico com o apoio do Laboratório dos Exploradores, uma sala de apoio ao ensino doméstico, no Colégio Um Dó Li Tá e presença, na turma do 1.º ano do Externato As Descobertas, principalmente no 3.º período, quando a sua saúde melhorou.
Este ano, já inscrita no agrupamento de Escolas do Restelo, aconteceu a oportunidade de frequentar a Escola Ave-Maria.  Foi a Madalena D' Orey, da Terra dos Sonhos, que contactou com uma amiga que falou ao presidente da Fundação José de Almeida Eusébio, que gere esta escola.
E tdo aconteceu em menos de uma semana até a Eliana ir a uma entrevista e ser colocada numa turma. Fantástico!


Eu, como família que acolhe gratuitamente a Eliana, desde 2016, uma vez que esta chegou sem o acompanhamento dos seus familiares, fiquei perplexa e, mais uma vez, senti como tudo se organiza quando a causa é assim forte.

A Eliana, vai frequentar, em condições financeiras especiais, A Escola Ave-Maria, como o desafio de acompanhar um segundo ano, numa escola onde se acredita que cada um pode dar o máximo do seu potencial e, à partida, não se colocam limitações. Por esta atitude pedagógica tão positiva sinto-me muito tranquila e confiante.
E a Eliana, está super feliz. Já fala da sua escola com orgulho e, tenta, em muitos momentos, treinar um pouco mais a leitura, porque está no segunda ano.
Obrigada a todos os envolvidos.