quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

RECRIANDO A RESPONSABILIDADE DAS CRIANÇAS EM CATIÓ



- Querias cenouras ? - e o sorriso é imenso - Comprei!
- Queria sim, Eliana. - E corro para a abraçar, como se fosse uma surpresa imensa ela trazer cenouras para casa.
- Eu sabia que ias gostar! - responde-me toda feliz - Fui comprar!
E mostra-me, muito orgulhosa, um cesto cheio de cenouras embaladas.

- Mãe, advinha o que "compro-te"!!
Deixo de teclar no computador e olho para ela, a sublinhar estar surpreendida.
- Não sei! O que foste fazer?
- Advinha! - responde-me entusiasmada.
Espreito o cesto que esconde atrás das costas e arrisco.
- Arroz!
- Foi isso mesmo, mãe. Acertaste mesmo!

Volta a sair da sala a correr...
- Adeus! Já volto!!

- Precisavas mesmo de courgettes?
- Sim, por acaso precisava!- digo eu a teclar, no computador, este texto.
- Eu sabia mesmo! - e a Eliana, sorri para mim, cheia de orgulho.
Detrás das costas, saí o cesto cheio de courgettes. Sorri feliz.
Agradeço profundamente e lá vai ela outra vez...

E vai e vem, outra e outra vez, trazendo a carne embalada, as garrafas de água, as compras para uma semana...

O tempo vai passando...

Chega de novo, já afogueada. Agora, vem no cesto, mostarda e queijo.
- Filha, estás cansada. - digo eu, com meiguice, reparando na respiração acelerada.
- Não estou nada, mãe! Quero água!
- Ok! - digo eu sentindo toda a ternura desta miúda.

- Olha, trouxe-te um presente! - anuncia a Eliana.
Já está de novo, na sala, com mais mercearias. Agora, tem o queijo escondido atrás das costas.
- Hummm! Será queijo??- pergunto eu, perdida de riso.
- Boa! Isso mesmo! É queijo. - diz, sensatamente, para logo se despedir apressadamente.
- Um beijo! Tenho de ir.

Pela porta aberta do apartamento, entra o som dos passos apressados, desta criança trabalhadora e empenhada, mais uma vez, a descer as escadas. Percebo que desce, um lance, dois lances, três lances de escadas. Cantarola.
Num minuto, já a sinto a subir.

- Tem cuidado com o corrimão! - digo eu, mais uma vez, explicando que nesta história, não há lobos mas há corrimões.
- Tens de ir sempre junto da parede.Ouviste?- tinha-lhe eu dito, antes dela iniciar, este sobe e desce três andares, de uma escada de prédio, ampla, mas de corrimão em grade.
- Sim, mãe. .. vou ter cuidado! - diz-me muito séria.
E eu sei que sim!

- Olá! Já cheguei! Fui comprar coisas.
- Sim? - digo eu, desta vez admirando a persistência.
- Não precisavas de leite? ... Olha, o Kiko bebeu todo. Comprei mais.
- Boa! - repito eu, mais uma vez, divertida - Salvaste o nosso pequeno almoço!

Hoje mesmo, ao fim do dia, as duas, depois de uma reunião que eu tive fora de Lisboa, depois da escola dela, depois de passarmos rápidas por casa para voltarmos a sair, depois de atravessarmos Lisboa para, ir e vir à sessão com a Francisca, que o trânsito é sempre caótico, estivemos no supermercado, a comprar cenouras, arroz, bananas, courgette, carne embalada, garrafas de água, mostarda, queijo, leite e penso que foi tudo.
Os dois sacos de compras ficaram pesados.

Nestes dias, quando chego a casa, já cansada, custa-me subir com os sacos do supermercado, frequentemente pesados, mais a minha pasta com o peso do computador, dos meus cadernos e tralha habitual que sempre transporto, mochila da Eliana, pasta de trabalhos, pelo que, algumas vezes, o faço por etapas ou solicito ajuda a quem estiver em casa. Muitas vezes, é o meu filho de 25 anos, "Kiko" como refere a Eliana, que pega nos sacos e com ligeireza sobre os três andares.

Mas, agora, tenho uma nova ajudante que é a Eliana.

Uma dia, deixei, mais uma vez, uns sacos no primeiro andar e quando já estava a pousar as coisas, em casa, no terceiro andar e a preparar-me para descer, ela disse-me:
- Vou eu!
- Tu? Não podes Eliana - disse-lhe eu, em tom agradecido- os sacos são muito pesados, só o Kiko consegue ajudar porque é grande e forte.
E, mais uma vez, conseguindo me surpreender completamente, a Eliana respondeu-me a sorrir.
- Consigo, consigo! Queres ver? - e toda ela era expectativa do meu sim - Eu trago uma coisa de cada vez!!! Acredita em mim!

E eu fiquei, na entrada da porta, a vê-la descer os lances de escadas, tão divertida e tão feliz, a sentir-me completamente abençoada e a questionar-me, mais uma vez, como era possível a Eliana ser, uma criança, tão, tão especial.

Watna Na Cofa e Sumpte criaram uma filha maravilhosa.
Obediente e trabalhadora como sei que gostariam que ela fosse.
Muito obrigada!

Nota: obrigada Zeca Fernandes por me ter falado, com tanta alegria e orgulho, da sua infância em Bissau e da responsabilidade que tinha quando era criança, tão natural e tão comum às outras crianças do bairro onde vivia, dos seus pais e do crescer guineense. São esses testemunhos que me ajudam, agora aqui em Lisboa, a criar uma criança guineense, a valorizar a sua cultura e forma de estar na vida.
Muito obrigada!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A VOZ DA MÂE

A VOZ DA MÃE DA ELIANA - Hoje, a mãe da Eliana, falou pela primeira vez, pelo telefone, desde o local onde vive, com a filha, usando o telefone do pai da Eliana. E foi um acontecimento, aqui em casa. 
E lá, em Catió também deve ter sido. Quatro mil, quatrocentos e tantos quilómetros que se esfumaram num segundo e ficámos todos, aqui e lá, unidos e aconchegadinhos na conversa, na voz, a ouvir as nossas vozes. Maravilhoso! 

- Eliana, cuma bu sta? - repetiu a mãe da Eliana e repetiu e repetiu e repetiu, ao longo de dez minutos. 

A voz era pausada e baixa. Nervosa e saudosa. 

- Eliana, cuma bu sta? 

A Eliana, deitada, de cabeça na almofada, sorria e respondia alegre:
- Bem! Bem! Bem! 

Por trás, ouvia-se o pai, a rir, quando a Eliana falava.

- A Maria? O Jo? A Dina? - perguntava repetidamente a Eliana.
- I na durmi.- respondeu o pai, tantas vezes quantas ela perguntou pelos irmãos e pela prima. 

Os pais, eu senti-os felizes, alegres, nestes momentos, em que estivemos assim juntos à volta do telefone.
A rir, a rir. De repente ouvir a filha, a falar desenvolta em português de Portugal deve deixá-los felizes. Está crescida a sua menina. 

- Mana Luísa, cuma bu sta? Lourenço? Francisco? - perguntava, timidamente, a mãe da Eliana. 
- Bem! Bem! - cantava a Eliana 

E eu estava alegre, muito alegre, por ver a Eliana, tranquila e curiosa, a querer saber de todos, a tomar a iniciativa de falar.

- Quero ver a cara!! - pedia-me a Eliana mas não dava porque a net é fraca na Guiné Bissau e, até aquele momento, nunca tínhamos conseguido falar por voz, através do Messenger. Foi extraordinário! 

E os pais riam a ouvir a filha, falar. 

Foi bom e foi duro. 
Desliguei o telefone cheia de vontade de chorar. 
A Eliana estava alegre e começou a fazer disparates, sem querer dormir, a mexer os braços para cima e para baixo como que a remar e ainda me zanguei. 

Mas depois, adormeceu em cinco minutos. Penso que estava feliz.

Minha pequena, grande guerreira! 

Vamos fazer tudo para te trazer os teus pais, para te levar aos teus pais.