sexta-feira, 27 de outubro de 2017

GRAÇAS A DEUS TENHO REUNIÕES E COMPROMISSOS DEPOIS DAS CINCO DA TARDE

 E como trabalho em Setúbal, vivo em Lisboa e sou eu e eu, a responsável pela Eliana, recorro a amigas e amigos para me irem buscar a Eliana, muitas ou algumas vezes. Muitas. Desta vez, fez-se-me luz de que a Sofia Mendonça Quaresmavivendo no Funchalinho poderia ir buscar a Eliana a Vale Fetal ao espaço escolar e falei-lhe. 
- Claro Luísa, conta comigo. A minha filha Matide tem ballet mas eu levo a Eliana comigo.
Gosto de pessoas descomplicadas que me salvam a vida e fiquei a pensar como ia reagir a Eliana que conhece a Sofia mas não propriamente de estarmos juntas todos os dias.
Hoje, depois de deixar a cadeira, o casaco e o remédio de frigorífico na escola e de voar para Setúbal voltei a ligar para a Sofia a relembrar cuidados.
- Não te preocupes. Olha e já coloquei de lado um fatito da Matilde para ela experimentar e quem sabe até a deixam fazer uma aula.
Ainda estou em Setúbal a acabar tarefas mas quando consegui pegar o telemóvel só me ri.
Vejam a fotografia que me enviaram.
A miúda está feliz. Estou morta por a ir bucar!!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

NÃO CONTES A MINHA HISTÓRIA

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- Mãe, não contes a minha história! - disse-me a Eliana.

Hoje, faço reflexões em torno da privacidade das crianças, da sua história de vida e do sentido, do sofrimento, na vida das crianças e das suas famílias.

Neste "Dia Internacional de Erradicação da Pobreza" debato, dentro de mim, a opção de não mais falar da Eliana e da sua história, como ela me pede, versus ,a Eliana ser uma criança com uma história de vida, que transformo no rosto de uma causa, provocando a discussão, semeando novos futuros, angariando recursos.

Como lidar no dia a dia, em casa, na escola, no hospital com perguntas sobre quem é a Eliana e porque está comigo, quando tanta pergunta salta à vista quando nos olham? 

Como lidar quando o laço biológico é continuamente posto em causa, quando até poderia existir, lado a lado, com o afecto que nos une? 
Não poderia a Eliana ser, minha neta, filha de um dos meus filhos?

Como ignorar, que a Eliana, tem uma família que a ama e a segue, sempre que pode, procurando novidades, vendo-a no Facebook, alegrando-se e orgulhando-se, por cada conquista, cada passo dado?
Como não valorizar, toda esta ligação à Guiné Bissau, se é da Guiné Bissau que a Eliana, é?
Como fazer silêncio de uma parte da vida que deu vida à Eliana mesmo que a vida, nessa vida, estivesse tão ameaçada e a possibilidade de regresso, não tenha data prevista?

- Mãe não digas isso, não contes a minha história ! - esta expressão é uma vontade da Eliana que quero ouvir e integrar na nossa vida,  mas construir, contos de fada, em que o presente é construído sem passado, também não é nem nunca será, a minha opção. A Eliana, eu sinto, muitas vezes fantasia o desejo, de ter nascido aqui, como todas as outras crianças que conhece, nesta família e nesta mãe que conhece e pronto. Mas não é assim.

Acredito que a Eliana, na sua incrível história de vida, é uma força de mudança e que a sua história de vida, será a raiz da sua identidade.

Depois tenho imensas interrogações quando me falam na Eliana e no direito que ela tem à privacidade, ao não revelar da sua história de vida e penso como, aqui na Europa,  não somos indiferentes à exposição pública de uma criança, que criticamos e nos choca,  mas somos indiferentes à pobreza?
Como não nos choca profundamente, mais e mais do que tudo na história de vida da Eliana, a impossibilidade de acesso de uma criança, à saúde acompanhada da sua família mas sim o facto de eu divulgar tantas fotos e histórias dela? 

Como não nos choca, mais do que tudo, a permanência de uma família na pobreza extrema, média ou em qualquer outro grau,  que a sinta?
Os números de crianças que morrem, por falta de condições básicas de vida, não é proibido?
A mortalidade materno infantil, não é proibida?
A ausência de saneamento básico, não é proibido?
A ausência de acesso a água potável?
A devastação do ambiente? A não sustentabilidade ambiental?
Porque nos preocupamos tanto em proibir a divulgação de dados pessoais e não proibimos a existência de condições de vida tão adversas?


Com todos e para todos, um mesmo mundo!