- Sabes, um dia, vou ser mais velha do que tu!
- Como assim? - perguntei eu
- Quando morreres, começas a baixar! Não sabias?
E abria imenso os olhos, a explicar-me, gesticulando com energia e convicção, para concluir.
- Tu tens cinquenta e nove anos, morres! Não fazes mais anos!
- Upsss! - pensei eu, uma vez que não deixava de ser verdade que deixava de fazer anos e ia começar a fazer uma nova pergunta, já a miúda me interrompia, quase a gritar, bem perto da minha cara:
-Baixas!!! Começas a baixar!!!
Fiquei surpreendida e ela percebeu, reforçando, imediatamente ,a explicação.
- Todos os anos, baixas um ano, percebes? Morreste e começa a contar do um. Um ano, dois anos ... percebes? ... e um dia, tens sete anos, certo?
E eu, a concordar com a lógica matemática da coisa e a relembrar as frases que usamos quando estamos em processos de luto, em que, de facto, muitas vezes, nos faz mais sentido contar os anos que passam, depois, de uma pessoa morrer.
- Faz, hoje, um ano! - disse-me, uma amiga, referindo-se ao seu pai.
E eu, passei a telefonar, a algumas pessoas, a quem lhes morreu familiares queridos, a recordar a pessoa, e a fazer isso, exactamente, o telefonema do primeiro ano, do segundo ano e, assim, sucessivamente.
A miúda, olhava para mim, a continuar a falar e eu, a sentir-me completamente perplexa e a perguntar-me onde teria ela ouvido esta conversa sobre a morte, onde teria ido buscar esta argumentação.
- Será que me tinha ouvido falar sobre este tema? - pensava eu, absorta nos meus pensamentos e a deixar de a ouvir mas, por pouco tempo uma vez que, em segundos, voltei a ouvi-la, com atenção, a dizer-me:
- Então, um dia tu estás morta e eu, sou mais velha que tu. Porque tu vais para o sete, a baixar, e eu, vou para o sete, a subir. - disse-me convicta com os braços a exemplificar a ordem decrescente e crescente dos números.
Eu concordei.
Mas fiquei curiosa e não resisti a perguntar:
- E, quando eu fizer zero, o que acontece???
A resposta, foi pronta e feliz !
- NASCES!!! - declarou-me, sorridente.
- Nasço? Como assim? - perguntei, eu.
- Nasces de outra família. - afirmou, tranquila.
- E vou ter contigo? - disse eu, já quase feliz mas, ao mesmo tempo, preocupada.
E o imediato ar pesaroso da miúda, mostrou-me, logo, que não deveria ser possível, eu nascer outra vez e ir ter com ela.
- Não! Desculpa lá! - esclareceu-me - Nasces, noutra família e não te lembras de nada. Não te lembras de nada de Luísa!!!!
- A sério? - disse eu, apreensiva, porque não me lembrar nada de ser eu própria, me causa, sempre, uma certa apreensão.
- Sim! E eu, também e o Kiko, também.- acrescentou referindo-se a ela e ao meu filho com quem vivemos. - Cada um, vai para a sua família, todas diferentes. Só morrer, ao mesmo tempo, é que é ir para a mesma família.
Nesta altura, eu resolvi que era melhor voltar a centrar a miúda, no aqui e agora, da nossa vida actual e, pragmaticamente, lembrar-lhe da importância de subirmos as escadas e começarmos a sequência diária de "tomar banho-jantar- cama" que marca o nosso final de dia.
Ela concordou e mudou de conversa, mas não sem antes me avisar que eu podia nascer castanha e o meu filho, também e que ela poderia nascer branca, porque cada pessoa, nasce no seu sítio e Jesus, demora, muito tempo, a escolher a cor de cada um.
Não fiz perguntas sobre este processo de atribuição de cores para não dar novo folgo à conversa e comecei a subir as escadas a falar sobre o que tínhamos combinado fazer para jantar que é um tema que sempre a motiva e o resto do dia correu tranquilo com a conversa esquecida do lado de fora de casa.
Fica a partilha da presença da Guiné Bissau, no meu dia a dia!