Nos grupos de mães que integro no Facebook é frequente ver publicações sobre como remover nódoas dos sofás, das paredes, das costas de uma cadeira forrada de tecido. Acho sempre divertido e, numa última publicação de uma mãe fula com os desenhos da filha nas costas de uma cadeira, comecei a pensar no que acontecia cá em casa e escrevi.
Eliana, sete quase oito anos, está em nossa casa desde os quatro quase cinco anos.
Chegou a uma casa, há muito tempo, só habitada por adultos e fez a revolução.
Já conseguiu vomitar, em todas as superficies, forradas a pano, cá de casa, ou seja, os três metros de sofá pareciam ter desenhado o mapa mundo, estampado no maravilhoso pano cinzento. É verdade que eu poderia ter evitado estes múltiplos acontecimentos "manchatórios" do sofá, se o tivesse protegido, desde que a criança chegou, mas odeio colchas em cima dos sofás mesmo que as minhas amigas (obrigada Cláudia e Francisca) me tenham mostrado que podiam ser fashion e o ambiente ficar giro!
Assim, a senhora da lavandaria onde fui, hoje, disse-me, tipo verdade básica que eu já deveria saber antes de me ter lembrado de lavar as almofadas do sofá na sua lavandaria e, não fosse eu ter algum tipo de esperança que o pano do sofá voltaria à sua cor original, uma frase que ficou a ecoar na minha cabeça como sinónimo da minha incapacidade para preservar o património decorativo, básico, de minha casa:
- TUDO BEM, vamos limpar a seco e depois, com água MAS já a AVISO que, as nódoas COZIDAS não saem, NUNCA!
😱😟
Ora, eu nem sabia que havia nódoas COZIDAS mas pareceu-me grave!
Logo, foi com uma imensa desilusão que pré-paguei o serviço, sem qualquer tipo de sorriso e vim embora, cabisbaixa.
- Pelo menos, tentei! - pensei eu, para me animar - E sempre pode ser que resulte e, de certeza mais barato do que vai ser resolver o problema da cama.
Passo a explicar, o meu quarto tem uma cama tradicional portuguesa, estilo Dona Maria, com uma imensa cabeceira de madeira envernizada.
Pois um dia, a criança resolveu a referida cama com letras autocolantes, cor de rosa. Penso que a ideia era ser super-amorosa, 😍🥰 mas eu fiquei, para sua surpresa, super irritada porque imaginei, logo, o resultado catastrófico.
E foi mesmo, quando tirei as ditas das letras, saiu o verniz agarrado às letras autocolantes. E ficou, assim, perfeitamente desenhada na cabeceira da cama, uma palavra incompreensível, que me irrita quase todos os dias e ainda nem contei à minha mãe que me ofereceu a cama, há trinta anos atrás, com tanto amor e carinho.
Nem quero saber o preço de mandar arranjar a cabeceira da cama mas também já estou a antecipar o senhor jacinto que me conhece há anos, a sorrir e a perguntar se já tenho netos tão crescidos.
Mas a ideia de decorar cabeceiras de cama não foi apenas na minha cama que a Eliana a concretizou. A cama dela também foi objecto de uma remodelação que em muito ultrapassa a imaginação decorativa dos decoradores do programa "Querido Mudei a Casa".
A cama da Eliana, que já vinha do tempo do Alfa, outra criança guineense que esteve aqui em casa era de madeira escura, uma cama do IKEA, oferecida pela Conceição e o Nuno. Era mais uma cama de rapaz do que de uma pequena princesa logo sempre pensei em pintar de cor-de-rosa.
E quando a Eliana foi fazer a mega cirurgia ao coração em 2017, a cama dela, foi carinhosamente pintada de cor-de -rosa pela Maria Portugal. A Eliana estava no hospital e tinha sido uma espécie de promessa que, um dia, sairia do hospital e teria uma cama pintada tipo cama de princesa com o seu nome pintado a dourado.
- E teve! - mais uma vez obrigada Maria Portugal, foste um amor!
Mas umas semanas depois, a Eliana e uma criança chamada Nicole que veio passar aqui a tarde a casa e que a mãe descreve como um furacão, resolveram fazer desenhos em toda a cama, a lápis de carvão.
O meu filho bem me foi avisar que as crianças estavam muito silenciosas mas eu não liguei. E quando fui ver o que faziam já era tarde demais.
Todo o encanto da cama já tinha desaparecido e a minha tentativa de apagar a expressão da criatividade das crianças não foi nada bem conseguida. O cor-de-rosa começou também a desaparecer.
Logo, todos os dias ao deitar e ao acordar a Eliana ou sempre que entrou no quarto para arrumar qualquer coisa fico surpreendida e chateada a ver os desenhos na cama porque não sei porquê não me consigo habituar e estou sempre a pensar que a cama contínua maravilhosa, cor-de-rosa. como quando a Eliana veio do hospital.
É um problema que atravessa várias áreas da minha vida. Só registo o positivo! Entro em negação quando a realidade não é como eu a imagino.
Por último, a presença da Eliana, marcou todas as cadeiras cá de casa. Um desastre!
Cadeiras de palhinha, que sobreviveram ao crescimento de dois filhos não sobreviveram à Eliana.
Sinceramente, não percebo. Talvez, a criança nem tenha culpa e a degradação das cadeiras seja apenas um efeito do tempo mas parece-me que é impossível.
Principalmente uma, que ostenta um gigantesco buraco, só possível porque alguém deu saltos em pé, em cima da mesma sendo que o mistério é porque ninguém viu. Não existe uma única testemunha.
Já o mesmo não acontece com o balançar sistemático na cadeira onde se senta seja qual for a refeição do dia. Do pequeno almoço até ao jantar, passando pelo almoço e pelo lanche e alguns momentos em que faz trabalhos de casa numa mesa, o balançar na cadeira é uma constante.
Claro que após uma advertência simples, pára mas dois minutos depois está a fazer a mesma coisa. - Enfim!
Esta criança é uma benção na minha vida mas um desastre na minha casa.
Logo, compreendo o seu desespero de mãe com uma cadeira toda riscada e desejo-lhe boa sorte a gerir emoções.
terça-feira, 4 de junho de 2019
quinta-feira, 16 de maio de 2019
OLHOS CASTANHOS, OLHOS AZUIS, OLHOS VERDES!
Eliana, tem sete anos, é da Guiné Bissau e vive em Portugal desde os quatro anos. Hoje, a caminho da escola, partilhou esta descoberta, que agora escrevo.
| Olhos castanhos. |
- Sabes, que eu pensava que os olhos castanhos viam tudo, castanho, os olhos azuis viam tudo, azul e os olhos verdes viam tudo, verde?
- Sim? - digo eu, a registar, mais uma vez, as coisas que esta miúda vai pensando e concluindo, sobre o mundo que a rodeia.
- Pois! Mas afinal, todos os olhos, estão a ver a mesma coisa.
- Pois é! - concordei eu, sem deixar de reflectir como seria bom, que aos sete anos, todo o ser humano já tivesse, por observação e reflexão interior, concluído, por si só, esta basilar verdade:
- Vemos todos a mesma coisa, seja através de, olhos castanhos, azuis ou verdes.
- Sim? - digo eu, a registar, mais uma vez, as coisas que esta miúda vai pensando e concluindo, sobre o mundo que a rodeia.
- Pois! Mas afinal, todos os olhos, estão a ver a mesma coisa.
- Pois é! - concordei eu, sem deixar de reflectir como seria bom, que aos sete anos, todo o ser humano já tivesse, por observação e reflexão interior, concluído, por si só, esta basilar verdade:
- Vemos todos a mesma coisa, seja através de, olhos castanhos, azuis ou verdes.
E, como seria o mundo e as relações entre os seres humanos, se aos oito anos de idade, as crianças já tivessem alargado esta conclusão, à cor de pele, à cor do cabelo, ao formato do corpo, à beleza do rosto, ao lugar onde se vive, à língua que se fala, à religião que se professa ?
A ideia de semelhança entre eu e os outros, tem o seu significado pleno, quando resulta da própria observação da criança do mundo que a rodeia, sendo tão enriquecedor, que o adulto que para ela é referência a certifique como verdadeira. Eu sinto assim!
terça-feira, 14 de maio de 2019
DIÁLOGOS
- Sabes, um dia, vou ser mais velha do que tu!
- Como assim? - perguntei eu
- Quando morreres, começas a baixar! Não sabias?
E abria imenso os olhos, a explicar-me, gesticulando com energia e convicção, para concluir.
- Tu tens cinquenta e nove anos, morres! Não fazes mais anos!
- Upsss! - pensei eu, uma vez que não deixava de ser verdade que deixava de fazer anos e ia começar a fazer uma nova pergunta, já a miúda me interrompia, quase a gritar, bem perto da minha cara:
-Baixas!!! Começas a baixar!!!
Fiquei surpreendida e ela percebeu, reforçando, imediatamente ,a explicação.
- Todos os anos, baixas um ano, percebes? Morreste e começa a contar do um. Um ano, dois anos ... percebes? ... e um dia, tens sete anos, certo?
- Quando morreres, começas a baixar! Não sabias?
E abria imenso os olhos, a explicar-me, gesticulando com energia e convicção, para concluir.
- Tu tens cinquenta e nove anos, morres! Não fazes mais anos!
- Upsss! - pensei eu, uma vez que não deixava de ser verdade que deixava de fazer anos e ia começar a fazer uma nova pergunta, já a miúda me interrompia, quase a gritar, bem perto da minha cara:
-Baixas!!! Começas a baixar!!!
Fiquei surpreendida e ela percebeu, reforçando, imediatamente ,a explicação.
- Todos os anos, baixas um ano, percebes? Morreste e começa a contar do um. Um ano, dois anos ... percebes? ... e um dia, tens sete anos, certo?
E eu, a concordar com a lógica matemática da coisa e a relembrar as frases que usamos quando estamos em processos de luto, em que, de facto, muitas vezes, nos faz mais sentido contar os anos que passam, depois, de uma pessoa morrer.
- Faz, hoje, um ano! - disse-me, uma amiga, referindo-se ao seu pai.
E eu, passei a telefonar, a algumas pessoas, a quem lhes morreu familiares queridos, a recordar a pessoa, e a fazer isso, exactamente, o telefonema do primeiro ano, do segundo ano e, assim, sucessivamente.
A miúda, olhava para mim, a continuar a falar e eu, a sentir-me completamente perplexa e a perguntar-me onde teria ela ouvido esta conversa sobre a morte, onde teria ido buscar esta argumentação.
- Será que me tinha ouvido falar sobre este tema? - pensava eu, absorta nos meus pensamentos e a deixar de a ouvir mas, por pouco tempo uma vez que, em segundos, voltei a ouvi-la, com atenção, a dizer-me:
- Então, um dia tu estás morta e eu, sou mais velha que tu. Porque tu vais para o sete, a baixar, e eu, vou para o sete, a subir. - disse-me convicta com os braços a exemplificar a ordem decrescente e crescente dos números.
Eu concordei.
Mas fiquei curiosa e não resisti a perguntar:
- E, quando eu fizer zero, o que acontece???
A resposta, foi pronta e feliz !
- NASCES!!! - declarou-me, sorridente.
- Nasço? Como assim? - perguntei, eu.
- Nasces de outra família. - afirmou, tranquila.
- E vou ter contigo? - disse eu, já quase feliz mas, ao mesmo tempo, preocupada.
- Faz, hoje, um ano! - disse-me, uma amiga, referindo-se ao seu pai.
E eu, passei a telefonar, a algumas pessoas, a quem lhes morreu familiares queridos, a recordar a pessoa, e a fazer isso, exactamente, o telefonema do primeiro ano, do segundo ano e, assim, sucessivamente.
A miúda, olhava para mim, a continuar a falar e eu, a sentir-me completamente perplexa e a perguntar-me onde teria ela ouvido esta conversa sobre a morte, onde teria ido buscar esta argumentação.
- Será que me tinha ouvido falar sobre este tema? - pensava eu, absorta nos meus pensamentos e a deixar de a ouvir mas, por pouco tempo uma vez que, em segundos, voltei a ouvi-la, com atenção, a dizer-me:
- Então, um dia tu estás morta e eu, sou mais velha que tu. Porque tu vais para o sete, a baixar, e eu, vou para o sete, a subir. - disse-me convicta com os braços a exemplificar a ordem decrescente e crescente dos números.
Eu concordei.
Mas fiquei curiosa e não resisti a perguntar:
- E, quando eu fizer zero, o que acontece???
A resposta, foi pronta e feliz !
- NASCES!!! - declarou-me, sorridente.
- Nasço? Como assim? - perguntei, eu.
- Nasces de outra família. - afirmou, tranquila.
- E vou ter contigo? - disse eu, já quase feliz mas, ao mesmo tempo, preocupada.
E o imediato ar pesaroso da miúda, mostrou-me, logo, que não deveria ser possível, eu nascer outra vez e ir ter com ela.
- Não! Desculpa lá! - esclareceu-me - Nasces, noutra família e não te lembras de nada. Não te lembras de nada de Luísa!!!!
- A sério? - disse eu, apreensiva, porque não me lembrar nada de ser eu própria, me causa, sempre, uma certa apreensão.
- Sim! E eu, também e o Kiko, também.- acrescentou referindo-se a ela e ao meu filho com quem vivemos. - Cada um, vai para a sua família, todas diferentes. Só morrer, ao mesmo tempo, é que é ir para a mesma família.
- Não! Desculpa lá! - esclareceu-me - Nasces, noutra família e não te lembras de nada. Não te lembras de nada de Luísa!!!!
- A sério? - disse eu, apreensiva, porque não me lembrar nada de ser eu própria, me causa, sempre, uma certa apreensão.
- Sim! E eu, também e o Kiko, também.- acrescentou referindo-se a ela e ao meu filho com quem vivemos. - Cada um, vai para a sua família, todas diferentes. Só morrer, ao mesmo tempo, é que é ir para a mesma família.
Nesta altura, eu resolvi que era melhor voltar a centrar a miúda, no aqui e agora, da nossa vida actual e, pragmaticamente, lembrar-lhe da importância de subirmos as escadas e começarmos a sequência diária de "tomar banho-jantar- cama" que marca o nosso final de dia.
Ela concordou e mudou de conversa, mas não sem antes me avisar que eu podia nascer castanha e o meu filho, também e que ela poderia nascer branca, porque cada pessoa, nasce no seu sítio e Jesus, demora, muito tempo, a escolher a cor de cada um.
Não fiz perguntas sobre este processo de atribuição de cores para não dar novo folgo à conversa e comecei a subir as escadas a falar sobre o que tínhamos combinado fazer para jantar que é um tema que sempre a motiva e o resto do dia correu tranquilo com a conversa esquecida do lado de fora de casa.
Fica a partilha da presença da Guiné Bissau, no meu dia a dia!
quarta-feira, 1 de maio de 2019
REFLEXÕES
As crianças nos países em que se vivem situações de pobreza extrema, com muitas mortes antes dos cinco anos, doenças repetidas, desnutrição, percebem muito cedo, que a sua vida depende, da possibilidade dos SEUS adultos, as cuidarem e alimentarem.
Esta realidade, como contexto de vida, gera uma diferença na forma de olhar o mundo entre estas crianças e as crianças, que não vivem em situação de pobreza extrema, como é o caso, das crianças que vivem, em contexto de classe média, em países, como Portugal.
Aqui, em Portugal, muitas das nossas crianças, nunca viveram em situação de pobreza ou próximo de contextos onde se vive em situação de pobreza, nunca observaram de perto, crianças da sua geração, a quem lhes faltasse aquilo que, sempre, tiveram como garantido: casa, alimentação, escolaridade e amor.
Logo, nem viveram nem observaram, situações de falta efectiva, de ausência de comida, de água, de luz, de serviços de saúde, de escola, de esperança de vida. Nunca!
A pobreza para muitas das nossas crianças, torna-se assim, uma espécie de ideia abstrata, de algo que acontece aos outros, mas não a si próprias, que os pais referem quando não comem a sopa falando de as muitas crianças que não têm nada para comer que passam fome e que, se deliciariam com aquela mesma sopa.
Assim, pelas circunstâncias privilegiadas das suas vidas, para muitas crianças, a pobreza, é algo que acontece fora da sua realidade imediata, em que as crianças pobres não vivem na mesma rua onde todos se encontram a brincar, não lhes conhecem os nomes, não foram companheiras de escola, não partilharam problemas, nem se consolaram, mutuamente.
Uma grande diferença acontece quando, uma criança cresce num contexto de pobreza, de escassez de recursos na família e na comunidade próxima. Quando uma criança cresce em situação de pobreza, a comida é um bem que é raro, que nunca se pode dar como garantida. E que se hoje come é porque os pais batalharam para conseguir, ou alguém veio dar ou foram apanhar. Mas nunca nada é permanente. E os pais são fundamentais porque uma criança abandonada, não sobrevive. Ou sobrevive, com um grupo de outras crianças.
O que aprendi com a Eliana, é que ela amava e ama os seus pais, pelo amor e porque cuidavam dela onde havia tanta dificuldade, e que agora me ama, com o mesmo amor que aprendeu com eles e, ao mesmo tempo que percebe que eu não tenho as mesmas dificuldades de acesso a comida, a água, a luz e a protecção em casa.
Percebe a diferença do nível de vida que lhe possibilito. Ao fim de umas semanas deixou de guardar pão nas gavetas e de ir verificar se havia ovos e manteiga no frigorífico podendo não comer tudo o que havia em casa, na refeição que estava fazer, porque a comida não ia desaparecer.
Verificava feliz que quando comia fruta aparecia mais no mesmo lugar, e o mesmo acontecia com os ovos e, muito mais tarde percebeu que havia supermercados onde havia tudo o que ela precisava para comer e que eu ia comparar quando era necessário. Foi uma descoberta imensa. E não era preciso trazer tudo do supermercado porque, no dia seguinte, continuavam a haver lá coisas para comprar. O mesmo não se passa na Guiné Bissau, onde pobreza é maior.
A Eliana percebe a diferença entre Portugal e a Guiné Bissau em muitas dimensões como o acesso a comida, higiene e sítio para dormir e em oportunidades que nunca sonhou ter, como a escola, as atividades de férias, os amigos, o amor que a rodeia.
O lugar da criança é um lugar maravilhoso, na nossa sociedade e ela sabe ligando-se, assim, imenso aos adultos que isso lhe possibilitam.
Esta realidade, como contexto de vida, gera uma diferença na forma de olhar o mundo entre estas crianças e as crianças, que não vivem em situação de pobreza extrema, como é o caso, das crianças que vivem, em contexto de classe média, em países, como Portugal.
Aqui, em Portugal, muitas das nossas crianças, nunca viveram em situação de pobreza ou próximo de contextos onde se vive em situação de pobreza, nunca observaram de perto, crianças da sua geração, a quem lhes faltasse aquilo que, sempre, tiveram como garantido: casa, alimentação, escolaridade e amor.
Logo, nem viveram nem observaram, situações de falta efectiva, de ausência de comida, de água, de luz, de serviços de saúde, de escola, de esperança de vida. Nunca!
A pobreza para muitas das nossas crianças, torna-se assim, uma espécie de ideia abstrata, de algo que acontece aos outros, mas não a si próprias, que os pais referem quando não comem a sopa falando de as muitas crianças que não têm nada para comer que passam fome e que, se deliciariam com aquela mesma sopa.
Assim, pelas circunstâncias privilegiadas das suas vidas, para muitas crianças, a pobreza, é algo que acontece fora da sua realidade imediata, em que as crianças pobres não vivem na mesma rua onde todos se encontram a brincar, não lhes conhecem os nomes, não foram companheiras de escola, não partilharam problemas, nem se consolaram, mutuamente.
Uma grande diferença acontece quando, uma criança cresce num contexto de pobreza, de escassez de recursos na família e na comunidade próxima. Quando uma criança cresce em situação de pobreza, a comida é um bem que é raro, que nunca se pode dar como garantida. E que se hoje come é porque os pais batalharam para conseguir, ou alguém veio dar ou foram apanhar. Mas nunca nada é permanente. E os pais são fundamentais porque uma criança abandonada, não sobrevive. Ou sobrevive, com um grupo de outras crianças.
O que aprendi com a Eliana, é que ela amava e ama os seus pais, pelo amor e porque cuidavam dela onde havia tanta dificuldade, e que agora me ama, com o mesmo amor que aprendeu com eles e, ao mesmo tempo que percebe que eu não tenho as mesmas dificuldades de acesso a comida, a água, a luz e a protecção em casa.
Percebe a diferença do nível de vida que lhe possibilito. Ao fim de umas semanas deixou de guardar pão nas gavetas e de ir verificar se havia ovos e manteiga no frigorífico podendo não comer tudo o que havia em casa, na refeição que estava fazer, porque a comida não ia desaparecer.
Verificava feliz que quando comia fruta aparecia mais no mesmo lugar, e o mesmo acontecia com os ovos e, muito mais tarde percebeu que havia supermercados onde havia tudo o que ela precisava para comer e que eu ia comparar quando era necessário. Foi uma descoberta imensa. E não era preciso trazer tudo do supermercado porque, no dia seguinte, continuavam a haver lá coisas para comprar. O mesmo não se passa na Guiné Bissau, onde pobreza é maior.
A Eliana percebe a diferença entre Portugal e a Guiné Bissau em muitas dimensões como o acesso a comida, higiene e sítio para dormir e em oportunidades que nunca sonhou ter, como a escola, as atividades de férias, os amigos, o amor que a rodeia.
O lugar da criança é um lugar maravilhoso, na nossa sociedade e ela sabe ligando-se, assim, imenso aos adultos que isso lhe possibilitam.
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| Crianças a almoçar, fotografadas pelo pai da Eliana, em Catió, Guiné Bissau. |
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