quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A CAIXA DO PRESENTE

No Natal, recebeu uma boneca numa caixa, uma cabeça de gatinha para pentear e fazer tranças, numa caixa em que o que me fez comprar a gatinha foi por ter uma menina como ela, cheia de caracóis e sorridente e ter pensado que poderia dizer que tinham sido os pais que tinham pedido a alguém para lhe comprar esse presente de Natal.
Ela amou, e amou ainda mais a história que lhe contei de como o pai tinha trabalhado muito na Guiné Bissau, para juntar muito dinheiro e mandar comprar este presente extraordinário para ela, a uma pessoa em Portugal para lhe dar no Natal.
Acabava a noite de Natal e o meu filho Francisco arrumava a sala e disse-lhe.
- Olha, Eliana, não precisas da caixa da boneca, pois não? Vou deitar fora.
A miúda virou-se, correu para a caixa e respondeu.
- Não, não, não faças isso. Vou guardar. Um dia, sabes eu não vou brincar mais com ela e posso querer dar a uma menina, minha amiga ou dar a uma menina pobrezinha.
- Sim!- disse o Francisco - Mas para dar a boneca precisas da caixa?
A boneca que quando der quer dar com a caixa.
O ar da miúda foi ao mesmo tempo de surpreendida e de suave censura.
- Claro que sim! - respondeu como se explicasse o óbvio - Mas tu gostavas de receber um presente sem caixa?


E é assim. esta capacidade de antecipar, de se colocar na perspectiva do outro, em caridade que nos surpreende todos os dias.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

VIVER O NATAL PELO OLHAR DE UMA CRIANÇA

Estamos na entrada de um hotel e a Eliana, afasta-se de mim e dirige-se a um presépio que está na zona de estar
De longe, vejo-a imóvel, em frente ao presépio. Uns minutos depois, volta a aproximar-se de mim e perguntou-lhe:
- Foste rezar ao Jesus?
- Sim!
Fico feliz e pergunto-lhe, entusiasmada, se estava a agradecer tudo de bom que acontecia, nestes dias de Natal dos presentes e de tantas coisas boas.
- Ah! E que disseste?. disse eu - Foste agradecer o nosso Natal maravilhoso?
- Falei na língua de Jesus. - responde-me com muita tranquilidade e percebo logo que partilha algo de profundamente íntimo.
Num instante, percebo que não estaria a agradecer os presentes de Natal e estas coisas mais terrenas em que pensei e pergunto-lhe, curiosa e perplexa, como é que tinha falado na língua de Jesus.
- Falei de boca calada. - diz-me sorrindo como se soubesse desde sempre que eu entenderia tudo e funde-se em mim, num terno abraço.
Muito especial, esta miúda.
Muitas vezes, sinto que cuidar desta criança é um imenso privilégio.
E que cuidar dela não é exactamente o que faço todos os dias porque o que sinto, é que ela é que veio para cuidar, cuidar de nós, cuidar dos outros.
Muito especial, esta miúda, que me trás a essência da vivência de Natal.

Eliana e o presépio onde falou com Jesus, na língua de Jesus.

Partilho!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A CAMPANHA PRESENTES NUMA CAIXA

A Eliana, foi quem trouxe, de uma forma mais afectuosa a Guiné Bissau até ao meu universo de vida. E, este ano, esse afecto que sinto pela Guiné Bissau que conheço através dos olhos de uma criança, concretizou-se na campanha que, como presidente da Associação Famílias do Mundo, me envolvi este mês de Novembro.

UM PRESENTE NUMA CAIXA

É uma campanha que traduz este sentir que, com a generosidade que temos dentro de nós, o desejo de transmitir aos nossos filhos e pessoas do nosso coração o valor imenso da solidariedade, podemos mudar, um dia, a época de Natal de uma só criança, de duas crianças, de quatro, de oito de um imenso número de crianças que, vivendo em situação de pobreza extrema, nada esperam e tudo recebem.

E um novelo de amor se desenrolou para "tricotar" esta campanha.

A Marisa Costa, estudante das minhas classes de relação escola-família nos anos noventa que me ligou a falar de uma campanha de Natal, na sua escola, onde se falaria dos sonhos dos meninos da Guiné Bissau e se eu saberia quais eram os presentes que os meninos de Catió, a localidade onde a Eliana vivia com a sua família, sonhavam para este Natal.

Eu sorri. Os meninos de Catió não sonham co, presentes de Natal como podem sonhar os meninos de Lisboa, Moita ou Montijo. Não existem lojas para fazer sonhar, não existe uma televisão a produzir sonhos nem mesmo o vizinho, o amigo, o filho do professor. A pobreza e a ausência de recursos é largamente partilhada por todos, na tabanca, no bairro, no Sul e no Norte de Catió.

Vejo a irmã que gere a escola da missão, a escola de  São Bento, a sorrir a mesmo tempo que escreve que os meninos de Catió  não sabem querer um presente de Natal porque nunca o tiveram.

E fico parada a pensar na impossibilidade desta acção pensada pela professora Marisa.

E comento preocupada com outra estudante dos anos noventa, a professora Eunice Ribeiro, que de tanto pensar "fora da caixa" me fala " fora da caixa"mais uma vez, perguntando se eu conheço a campanha dos presentes numa caixa de sapatos.
Eu ri-me. Só mesmo ela.
E assim, me contou, que são caixas de sapatos que se oferecem cheias de pequenos presentes que se oferecem às crianças no Natal, em campanhas desenvolvidas um pouco por todo o mundo no campo da solidariedade. Amei a ideia e fui logo pesquisar na internet.

E amei a ideia porque me fez sentido e tendo como pano de fundo a experiência da Eliana que durante mais de uma ano nunca ligou a brinquedos e no supermercado se fascinava e queria trazer para casa toda a fruta, todo o peixe, toda a carne.

Uma caixa com um brinquedo, um artigo de higiene, um artigo de vestuário e material escolar. Tão fantástico como realista.

E pensei logo em Catió e nas escola de São Bento e na possibilidade de as irmãs distribuírem os presentes pelos seus alunos, do pré escolar ao fim do secundário.

E era nisto que pensa quando por uma feliz coincidência do destino, conheci a guineense Muna Sila, advogada em Bissau, recém regressada de Portugal, amiga da minha amiga Nafi, também guineense e estudante na Universidade de Coimbra, a cidade onde nasci e a Muna me falou do seu desejo em oferecer presentes de Natal a crianças doentes em Bissau.

Num instante, este mar de afectos. organizou-se dentro de mim e fui escrever a publicação que deu origem à campanha UM PRESENTE NUMA CAIXA e que aqui partilho.