- Luísa, consegues arranjar uma família para acolher esta criança? Precisa de ser evacuada, com urgência; da Guiné Bissau e já tem possibilidade de consulta no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, Portugal. Tem quatro anos.
- Como não responder a um pedido humanitariamente maior?
Como poderei continuar, na minha vidinha de todos os dias, sabendo que, para trás, ficou a morte de uma criança?
- O que se alteraria na minha vida, se existisse mais uma criança, morta, na Guiné Bissau, que tomava conhecimento que existia num momento e, em outro, relativamente próximo, me informavam que deixava de viver?
- Morrerá por minha culpa? Sou responsável, por essa morte?
- Não, definitivamente, não serei responsável por essa morte, mas também não lhe posso ser indiferente.
NÃO LHE POSSO SER INDIFERENTE.
Tenho valores e quero que a minha vida seja um exercício de ética.
- E se fosse minha filha? - penso eu. - E se fosse minha filha?
Sinto, em mim, todo o amor que me liga aos meus filhos e avalio a sua dimensão.
O AMOR QUE ME LIGA AOS MEUS FILHOS É IMENSO.
E penso nos pais desta criança que olho, na fotografia.
E penso no amor que estes pais possuem por esta sua filha.
E penso, nesse mesmo amor que tenho pelos meus filhos e sinto a dor que podem estar a sentir.
Sinto a dor destes pais e volto a olhar para a fotografia da criança que precisa de ser evacuada da Guiné Bissau, com urgência, e reconheço os escritórios da AIDA, em Bissau.
Já lá estive, já vi a dura batalha que fazem pelas crianças e pelo encaminhamento das crianças doentes.
Procuro encontrar uma família que possa acolher a Eliana.
Ligo a todos os meus contactos. Não me sinto capaz de acolher uma criança tão pequenina.
Não me acho maternal, suficiente, para acolher uma criança pequenina desenvolvendo todos os cuidados que implica, pela sua dependência,
A viver há muitos anos sozinha, com filhos homens, eu amo a minha independência e não estou disposta a abdicar dela e mais, penso que nem conseguiria cuidar de uma criança, tão pequena.
Mas nenhum dos meus contactos, nem os contactos dos meus contactos, aceitam tal desafio.
Estamos em Julho, aproximam-se as férias e oiço as mais variadas, sensatas e responsáveis razões pelas quais, quem eu contacto, me enuncia para justificar a sua indisponibilidade para receber uma criança doente, tão pequena, por mais que o tema, sensibilize.
Eu subscrevo todas.
E os dias passam e começo a perceber que não consigo ninguém.
E tomo a decisão de receber esta criança.
Telefono à Gláucia, minha amiga, que já recebeu o Alfa, em conjunto comigo, em 2015, a perguntar se me garante apoio se eu acolher esta menina e a resposta é imediata que sim.
Tenho retaguarda.
Avanço.